0# CAPA 17.6.15

VEJA
www.veja.com
Editora ABRIL
Edio 2430  ano 48  n 24
17 de junho de 2015

[fotos de rosto de quatro rapazes, G.V.S., 17 anos, I.V.I. 15 anos, J.S.R., 16 anos, B.F.O., 15 anos. Efeito especial sobre a imagem do rosto para eu no possa ser reconhecido]
ESPECIAL MAIORIDADE PENAL
Eles estupraram, torturaram, desfiguraram e mataram
VO FICAR IMPUNES?

[outros ttulos parte superior da capa. Um com a foto do rosto da ministra Crmen Lcia e outro com foto do atleta olmpico de boxe, no alto do Vidigal]

LIBERDADE 9 X 0
O placar histrico com que o STF enterrou a censura prvia.

ONZE DE OURO
Uma seleo dos atletas do Brasil que tm tudo para brilhar na Rio 2016.

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1# SEES
2# PANORAMA
3# BRASIL
4# ECONOMIA
5# INTERNACIONAL
6# GERAL
7# ARTES E ESPETCULOS
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1# SEES 17.6.15

     1#1 VEJA.COM
     1#2 CARTA AO LEITOR  UM DIA HISTRICO NO STF
     1#3 ENTREVISTA  CLAUDIO LOTTENSBERG  O MDICO PE UM INDIVIDUALISTA
     1#4 MALSON DA NBREGA  CRISE E MEDIOCRIDADE
     1#5 LEITOR
     1#6 BLOGOSFERA

1#1 VEJA.COM

POESIA DO TERROR
E a terra de glria experimentou sua humilhao / Para depois se vestir em trajes de devoo." Aparentemente singelos, esses versos so parte de um poema escrito para ser declamado em alto e bom som como uma ode ao Estado Islmico. Longe de ser uma manifestao isolada de alguma mente sdica, a poesia do terror est no cerne do movimento jihadista. Segundo especialistas, "so os versos que expressam mais claramente a vida de fantasia da jihad". Ancorados em uma longa tradio de culto  poesia, arraigada na cultura islmica, os poetas jihadistas so fundamentais para construir o imaginrio e a fora ideolgica do Estado Islmico. 

DE CARONA NA LAVA-JATO
O petrolo atingiu em cheio a operao das maiores empreiteiras do pas, e algumas delas j entraram com pedido de recuperao judicial. Mas h quem encontre na desgraa do clube do bilho uma oportunidade. Construtoras mdias que passaram ilesas pelo turbilho se preparam para crescer no vcuo das grandes. Reportagem de VEJA mostra quais so as empreiteiras aptas a disputar territrio. Sem problemas financeiros nem judiciais, elas tm o caminho livre para se tornar gigantes tambm - e em um novo ambiente, no qual impere a legalidade. 

QUEM TEM MEDO DO INDOMINUS REX?
O enredo do filme Jurassic World, em cartaz no pas, mostra um novo animal, desenvolvido pela reunio do DNA dos mais perigosos dinossauros trazidos  vida pelos cientistas. No Mundo Jurssico, o resort fictcio de entretenimento em uma ilha da Amrica Central, o Indominus rex, a perigosa espcie da experincia, fica  solta e aterroriza visitantes. Entre a cincia criada por Hollywood e a da vida real, porm, h uma distncia espetacular. Reportagem do site de VEJA elenca os erros e acertos cientficos do filme e explica como as recentes descobertas apresentam evidncias de que os dinossauros podem no ter sido to assustadores quanto o T-rex do cinema, e sim mais parecidos com grandes avestruzes de penugem colorida. 


1#2 CARTA AO LEITOR  UM DIA HISTRICO NO STF
      bem estabelecido pela prtica histrica o princpio de que sobre a liberdade de expresso repousam todas as demais garantias do regime democrtico. Na quarta-feira passada, ao dar seu voto na deciso unnime do Supremo Tribunal Federal (STF) que considerou inconstitucionais os artigos 20 e 21 do Cdigo Civil, que exigem a aprovao prvia dos biografados a suas biografias, o ministro Lus Roberto Barroso produziu uma luminosa interpretao jurdica desse princpio. 
     Barroso lembrou que inexiste hierarquia entre as normas constitucionais, mas deu trs razes pelas quais "a liberdade de expresso deve ser tratada como uma liberdade preferencial". 
     A primeira razo, disse ele,  histrica, ressaltando que a censura nasceu junto com o Brasil, quando a carta de Pro Vaz de Caminha teve trechos considerados indecorosos suprimidos pelos religiosos jesutas que fizeram sua divulgao em Portugal. O ministro Barroso lembrou que durante o regime militar havia censura ao cinema e  televiso, "apreendiam-se jornais e revistas por motivos polticos ou de moralidade e boicotava-se a publicidade dos jornais independentes, para asfixi-los economicamente, situao que rotineiramente se repete na Amrica Latina". 
     A segunda: "Sem liberdade de expresso e de informao, no h cidadania plena, no h autonomia privada nem autonomia pblica".  
     A terceira: "A liberdade de expresso  indispensvel para o conhecimento da histria, para o progresso social e para o aprendizado das novas geraes". 
     A dimenso histrica da votao de quarta-feira foi acentuada pelo advogado Gustavo Binebojm, que atuou na ao em nome da Associao Nacional de Editores de Livros (Anel): "Esta  uma causa de um pas que tem pressa de se educar e se informar;  causa de todos os que acreditam que as ideias e as palavras podem mudar o mundo". A quarta-feira passada ficar como mais um contraste do Brasil com a Amrica Latina, onde, como bem disse o ministro Barroso, so rotineiras as tentativas de asfixiar a liberdade de expresso. No Brasil, essas tentativas recentes nunca passaram de ameaas. Isso se deve  resistncia do STF,  maturidade das instituies civis,  coragem do Congresso  e, reconhea-se,  reiterada profisso de f da presidente Dilma Rousseff nas liberdades democrticas.


1#3 ENTREVISTA  CLAUDIO LOTTENSBERG  O MDICO PE UM INDIVIDUALISTA
O presidente do Hospital Albert Einstein, de So Paulo, referncia mundial, diz que  preciso uma revoluo de humildade para a medicina realmente se aproximar dos pacientes.

Em dezembro do prximo ano, o mdico Cludio Lottenberg ter completado quinze anos  frente do Hospital Israelita Albert Einstein. Sob seu comando, a instituio passou por transformaes extraordinrias, tanto no mbito comercial como no social. O nmero de leitos quintuplicou, instaurou-se um dos maiores programas de transplante heptico do pas, fizeram-se parcerias com hospitais pblicos. Neste ano, em que comemora seis dcadas, o Einstein inaugurar uma faculdade de medicina. Mas a marca principal de Lottenberg  outra. Aos 54 anos, ele se revela um executivo de opinies originais e corajosas. Entre suas defesas, o programa Mais Mdicos e o uso da f na gesto do hospital. "A excelncia do hospital est profundamente ligada a seu DNA judaico", disse a VEJA. 

O senhor defende em seus discursos pblicos o programa do governo federal Mais Mdicos.  postura contrria  da maioria dos gestores de sade. Por que acredita estar certo? 
O Mais Mdicos  entendido em sua superficialidade, apenas como a insero de mdicos cubanos. O programa  muito mais amplo. Ele prev, por exemplo, a capacitao de profissionais e a ampliao de vagas de medicina. A importao dos cubanos seria feita compensatoriamente, caso os mdicos brasileiros no se interessassem em preencher as vagas ofertadas pelo governo federal em locais distantes dos grandes centros. Mas aqui cabe ressaltar um ponto paradoxal. No h como negar os riscos no atendimento de mdicos cubanos. Esses profissionais tm de trabalhar com superviso, e  possvel que isso no esteja ocorrendo. No entanto, os brasileiros que nunca tiveram ao menos uma pessoa que os olhasse, que assistisse as suas aflies, esto muito felizes com os mdicos cubanos. Quem est certo, afinal? A realidade  ntida: sem esses profissionais, inmeros doentes de vrios lugares do pas no teriam absolutamente nada. Diante dessa necessidade urgente de mdicos, a argumentao contrria aos cubanos perde a fora. 

Mas o profissional brasileiro conseguiria praticar uma boa medicina em cidades distantes dos grandes centros? 
No. Mas cabe a ele pressionar o Estado para criar as condies. A classe mdica estava muito acomodada at a chegada dos profissionais cubanos. Sempre me pergunto: no fizemos o juramento de Hipcrates? Muitos discutem salrios. Poucos, a insero social. Procuro essa postura no Hospital Albert Einstein. Ningum nos chamou para enviar ajuda aos sobreviventes do terremoto ocorrido no Haiti em 2010. Chegamos ao pas antes da Fora Area Brasileira. Claro, o governo tem de criar condies de trabalho para o mdico. Assim como tem de pagar bem ao profissional e oferecer uma carreira. Mas poucos davam ateno a essas questes at surgirem os mdicos cubanos. Gosto muito da seguinte frase: "As boas intenes morrem nas palavras". 

Recentemente, mdicos de hospitais pblicos e privados foram acusados de operar sem necessidade e usar prteses de segunda linha em troca de propina. Como eliminar esse tipo de crime? 
A situao  dramtica em qualquer lugar do mundo. Nos Estados Unidos, por exemplo, foram desperdiados 700 bilhes de dlares na rea da sade s no ano de 2013. As duas principais causas do problema foram definidas: 40% dos casos estavam associados  falta de protocolos mdicos bem estabelecidos; e 20%, a fraudes. O quadro  grave, no h dvida quanto a isso. Acredito, no entanto, que responsabilizar unicamente o mdico no resolve muita coisa.  apenas a ponta do iceberg. A indstria quer lucro a qualquer preo, a fonte pagadora quer sempre encontrar uma forma de pagar menos, os mdicos so mal remunerados e o paciente quer ver seu problema  resolvido. No h um nico culpado de planto, portanto. 

O que faz o Albert Einstein para lidar com as ilegalidades? 
Tentamos nos blindar contra a fraude por meio de vrias frentes. Fazemos um cerco. Primeiro, os mdicos firmam um documento sobre conflito de interesses. Dessa forma, o profissional sabe que est sendo observado internamente. Padronizamos a relao com os fornecedores de prteses. No aceitamos facilmente sugestes de fabricantes sem antes estabelecer uma discusso interna consistente. Afastamos fornecedores perante a mnima suspeita. Sei que posso perder alguns mdicos por causa dessa nossa postura. E estou convencido de que, apesar disso tudo, condutas indevidas podem acontecer aqui dentro. Mas estamos atentos sempre. 

O Einstein dever inaugurar ainda neste ano uma faculdade de medicina. J no h cursos de medicina em excesso no Brasil? 
Nossa faculdade no ser apenas mais uma no mercado. Ela formar um mdico com virtudes hoje pouco lembradas no universo acadmico. Os educadores esto preparando mdicos que podem ser chamados de "tcnicos de pessoas". O tecnicismo jamais substituir a viso do contexto de vida do paciente. Um dos principais desafios da nova faculdade, portanto, ser formar um mdico com uma viso mais ampla de sua profisso.  preciso gerenciar dvidas, orientar e saber trabalhar com conceitos de economia de sade e protocolos bem estabelecidos. O profissional no pode tratar da doena simplesmente. Mas cuidar das pessoas em toda a sua complexidade. 

H um exagero no pedido de exames da parte dos mdicos? 
Sim. H uma quantidade imensa de exames e prticas mdicas desnecessrios, e tambm exagerado uso de recursos tecnolgicos. O mdico s conseguir acabar com esse quadro, muito ruim, se tiver uma viso organizada e protocolar de seus atos, alm de, evidentemente, ter uma viso ampla do doente. Insisto nessa questo. Vou citar um exemplo recente que aconteceu no Albert Einstein. H cerca de trs anos, propus a criao de um centro de segunda opinio em cirurgia de coluna. Nesse centro, os mdicos avaliam as queixas dos pacientes que j chegam com indicao cirrgica. So profissionais sem ligao com aqueles que fariam o procedimento cirrgico. Mais que isso: desenvolvemos protocolos e definimos padres cirrgicos. Ou seja, criamos uma prtica organizada de atendimento. O resultado foi surpreendente. Apenas 40% dos pacientes que chegam ao hospital com indicao de cirurgia de coluna so de fato submetidos ao procedimento. Evita-se o desperdcio de tempo e dinheiro. 

Como um hospital privado pode contribuir para melhorar a sade pblica? 
Em primeiro lugar, sendo exemplo de qualidade em gesto. Repito aqui: sem protocolos de condutas e tratamentos baseados em estudos slidos no h como medir resultados e, portanto, no h como melhorar. Nossa participao na sade pblica  tambm na esfera prtica. Temos o maior e mais bem aparelhado servio de transplante de fgado acessvel aos usurios do SUS. Mantemos uma ampla parceria com hospitais pblicos municipais, o Dr. Moyss Deutsch e, a partir deste ms, o Vila Santa Catarina, ambos em So Paulo. 

Como anda a relao mdico e paciente no Brasil? 
Precisa ser mais humanizada. No se trata de pegar na mo do doente nem de puxar a cadeira para ele se sentar. Uma relao humanizada envolve diversos fatores, todos com um nico objetivo  pr o paciente no centro das atenes, sempre e cada vez mais.  crucial lidar com o doente a partir das suas fraquezas. E no  possvel agir desse modo se o profissional no admitir as prprias fragilidades. Chega de arrogncia. O mdico  um individualista. No divide informaes. Em um passado no muito distante, tal postura at era possvel. O mdico se bastava. Ele era nico. Hoje  praticamente impossvel o profissional dominar todas as informaes com o grande avano ocorrido na medicina. Veja o que aconteceu na minha rea. No incio as pessoas me procuravam principalmente para trocar de culos. Hoje, para tratar das doenas que as fazem usar culos e de outras tantas associadas ao envelhecimento, como glaucoma, degenerao macular senil. Ser que eu tenho tempo e consigo ser perfeito em todos esses campos? Ou preciso de pessoas para me ajudar a ser mais resolutivo? 

H poucos meses, o senhor sofreu uma cirurgia de catarata. Como se sentiu no papel de paciente, justamente na rea em que  especialista? 
Tive muita dificuldade em lidar com a doena do incio ao fim. Primeiro, relutei para aceitar que estava com o problema de viso, mesmo sofrendo de um sintoma clssico. De repente, o grau dos meus culos de miopia comeou rapidamente a aumentar. Quando um paciente relata essa situao ao mdico, o diagnstico de catarata  praticamente certeiro. Mas, como era comigo, criava desculpas, relutava. At que um dia minha viso de fato ficou comprometida e tive de aceitar o diagnstico. A partir da foi outro dilema: a cirurgia. Passei a me lembrar de todas as situaes ruins que vivenciei em minha carreira, que foram rarssimas. O procedimento  extremamente simples e seguro. Mas nada funcionava comigo. O ms em que marquei a operao foi um dos mais sofridos da minha vida. Quando entrei no centro cirrgico, tive a sensao de estar entrando para outra vida. Cheguei a pensar que ia morrer. E repito: como especialista no assunto, sei que isso no acontece. S me tranquilizei no dia seguinte, quando voltei a enxergar. 

Os mdicos que passam por situao semelhante costumam mudar a postura com os pacientes? 
Essa experincia mudou a minha vida pessoal e profissional. No h dvida de que me tornei um mdico muito melhor. Estou mais prximo dos meus pacientes. Agora valorizo absolutamente todas as tristezas e angstias do doente, mesmo sabendo que esses sentimentos no vo repercutir na doena em si. Hoje me dedico com a mesma intensidade a discutir com o paciente sobre uma simples aflio e um procedimento cirrgico. Mas estar do outro lado da mesa do consultrio, digamos assim, e de um tipo de consultrio to familiar para mim, me fez cuidar mais da minha sade. Nos ltimos seis meses emagreci 6 quilos, voltei a praticar ginstica diariamente. Ganhei disposio. Sintome mais jovem. Tenho nimo para brincar com meus filhos. 

A imagem do Einstein est profundamente associada aos valores do judasmo. At que ponto essa relao  decisiva para a qualidade do hospital? 
A excelncia do Albert Einstein est profundamente ligada ao seu DNA judaico. O judeu tem o papel de questionar permanentemente tudo. O judeu sempre acha que tem de fazer mais. Trata-se de um inconformismo sistemtico. Isso para no falar do papel primordial da f na gesto desse hospital. Tenho aqui, evidentemente, as melhores ferramentas da lgica e da cincia para comandar esse hospital. Mas me dou ao luxo de usar a f como instrumento de gesto fundamental. O que significa acreditar naquilo que as pessoas acham que no vai dar certo.  acreditar em coisas no to tangveis. Essa atitude  um fator fundamental na busca constante da qualidade no Albert Einstein.

O papa Francisco reconheceu o Estado da Palestina recentemente. O que o senhor achou disso? 
Francisco  um homem que tem avanado sobre temas polmicos que ficaram parados por muito tempo. O Oriente Mdio precisa encontrar uma soluo para o povo palestino. Acredito que esse reconhecimento no significa uma negao do Estado de Israel. Mas de nada adianta tomar uma atitude se no houver um desdobramento de carter prtico. Gostaria que o papa no parasse esse movimento e usasse sua legitimidade para convencer o povo palestino de que, se no reconhecer o povo de Israel, no ser possvel nenhum tipo de entendimento. O papa tomou essa iniciativa positiva. Mas a partir de agora ele passa a ser um dos protagonistas dessa histria. Ele tem de exigir do povo palestino que aceite tambm o Estado de Israel. 


1#4 MALSON DA NBREGA  CRISE E MEDIOCRIDADE
     Aumentou a presena da palavra crise no noticirio. Na verdade, so muitas as crises. Elas causam incertezas, desnimo e at medo. O destaque  a crise econmica, caracterizada por recesso, inflao alta, desemprego crescente, renda ladeira abaixo, confiana e investimento em queda, e elevada vulnerabilidade externa. O que esperar? 
     A crise da Petrobras diminui os investimentos da estatal, repercute na sua cadeia de suprimentos e faz o PIB perder ainda mais ritmo. A crise poltica, que se deve s deficincias de liderana da presidente Dilma, cria vcuo e abre espao para o protagonismo, o oportunismo e a falta de responsabilidade do Congresso. Vejam-se a deciso de enfraquecer o fator previdencirio e outras que agravam aja difcil situao fiscal. 
     Crises acontecem em sistemas complexos (a famlia, a economia, a sociedade), conduzindo a situaes instveis e perigosas. Podem ocorrer de repente  de causas difceis ou impossveis de antecipar  ou resultar de longo e cumulativo processo de circunstncias, muitas vezes por falhas do governo.  
     Exemplo de crise repentina  o terremoto (e suas consequncias). Outros so colapsos financeiros que podem espalhar-se mundo afora, como os que deram origem  Grande Depresso (anos 1930) e  crise de 2008, ambos iniciados nos Estados Unidos. Os dois decorreram da incapacidade de detectar riscos e de adotar medidas preventivas. 
     Na dcada de 30, erros do Federal Reserve (o banco central americano) e medidas protecionistas acarretaram quebra de bancos e reduo do comrcio mundial. Esto a as razes da Grande Depresso. Em 2008, deficincias de regulao permitiram que instituies financeiras assumissem riscos irresponsveis em operaes com hipotecas. A quebra do banco Lehman Brothers foi o disparador da crise, mas suas bases j estavam lanadas. 
     Crises econmicas podem advir de erros cujos sinais no so captados por analistas e estrategistas do governo. A crise de 2008 vem mais uma vez  mente. O ento festejado presidente do Federal Reserve, Alan Greenspan, no percebeu a eroso dos alicerces do sistema financeiro americano. A rainha da Inglaterra, que teria perdido 25 milhes de libras em seus investimentos, ficou perplexa. Em evento na London School of Economics, perguntou por que ningum detectara o problema. Resposta do professor Luis Garicano, diretor de pesquisa da escola: "A cada momento, algum confia em algum e todos imaginam que esto fazendo a coisa certa". 
     No Brasil, crises econmicas aconteceram, no raro, por incapacidade de perceb-las. No regime militar, a ausncia de liberdades como a de imprensa inibia a crtica e dificultava a identificao de riscos. Em alguns momentos, crises econmicas acarretaram crises polticas graves, das quais sobreveio o autoritarismo. O regime militar de 1964 perdeu legitimidade com a crise econmica da dcada de 80, o que contribuiu para o seu fim. 
     A atual crise econmica  a primeira da nossa histria a ser antecipada, embora no se criassem condies polticas para revert-la durante sua evoluo. No primeiro mandato de Dilma, analistas e imprensa apontaram repetidamente erros crassos: excessiva e desastrada interveno na economia, aumento de gastos e contabilidade fiscal criativa, alm de retrocessos na abertura da economia. Previa-se que a "nova matriz macroeconmica", um amontoado de ideias bolorentas, daria com os burros n'gua. Teimosia e ideologia tornaram moucos os ouvidos do governo. A conta chegou. 
     Felizmente, o pas mudou. Construmos instituies que disciplinam o governo e foram em algum momento a correo de rumos. Da o ajuste fiscal em curso. Assim, ruptura poltica ou desorganizao da economia so eventos pouco provveis. Dificilmente recairemos na ditadura ou na hiperinflao. 
     O principal efeito dos erros do primeiro mandato  a queda drstica do investimento e da produtividade. So reveses que nos imporo longa travessia at que novas lideranas consigam realizar reformas estruturais que nos devolvam a capacidade de fazer crescer a economia em ritmo satisfatrio. Isso posto, o principal subproduto dos erros tende a ser a mediocridade, no um salto no escuro. Aleluia!
MAILSON DA NOBREA  economista


1#5 LEITOR

CES NAS FAMLIAS BRASILEIRAS
Oportuna a reportagem "A casa agora  deles" (10 de junho), que retrata a relevncia e o significativo aumento da presena dos animais de estimao na vida das famlias brasileiras. A convivncia harmoniosa entre crianas, idosos e animais consagra um novo momento no cotidiano dos lares no pas. Esse avano reflete e comprova quanto os animais so importantes para os seres humanos. Cuidemos bem de nossos amigos. 
RICARDO TRIPOLI 
Deputado federal (PSDB-SP) 
Coordenador de Fauna da Frente Parlamentar 
Ambientalista do Congresso Nacional 
Braslia, DF 

VEJA confirmou que, em termos financeiros, sociais e ambientais (j que somos mais de 7 bilhes de pessoas a consumir mais do que o planeta pode oferecer de recursos), a opo por pets em vez de filhos  a mais racional e lgica que se pode ter. 
LUIZ CARLOS DE CASTRO VASCONCELLOS 
So Paulo, SP 

Gosto dos animais, respeito-os e tenho carinho por eles, mas no concordo com sua "humanizao". Esse exagero no trato com essas "crianas felpudas" traduz o fracasso do ser humano em lidar com os seus semelhantes; afinal, o co  subserviente e no discute com o dono, enaltecendo seu desejo de poder. 
JOO EVANGELISTA TEIXEIRA LIMA 
Vila Velha, ES 

A criao de cachorros em detrimento da de crianas significa para o pas o absurdo dos absurdos! Cachorros tratados como filhos... com tantas crianas precisando de adoo, de uma famlia. Acorda, povo! 
VANJA MARIA LOPES DE ANDRADE LIMA 
Recife (PE), via smartphone 

Eu me sinto privilegiada em sempre ter convivido com os animais. Alm de nos proporcionar seu amor incondicional, o contato com eles nos remete  mais pura essncia da natureza. Ocorre uma simbiose, e, na presena deles, ns nos esquecemos de toda a maldade e ganncia inerentes aos seres humanos: a alma se purifica. 
JULIANA PISETTA 
Foz do Iguau, PR 

Nada contra criar animais de estimao, mas dez cachorros no substituem um filho. 
MARISTELA FAOSTINO GAVIOLI VIEIRA 
So Joo da Boa Vista, SP 

LYA LUFT 
A sutileza da laureada escritora Lya Luft em seu artigo "Pagando a dvida alheia" (10 de junho) nos induz  reflexo e  constatao de quo inescrupulosos so os polticos que objetivam sistematicamente se perpetuar no poder, no obstante os percalos e as tragdias econmico-financeiras que causaram a um povo incauto e sofrido. Refiro-me ao (des)governo do PT. 
ANTNIO RAMOS 
Taguatinga, DF 

As palavras realistas de Lya Luft retraiam todo o engodo que estamos vivendo com este desgoverno. Jamais neste pas tivemos tanta certeza de que polticos nunca visaram ao povo como prioridade, e sim a eles mesmos. Sinceramente, eu me emocionei com o texto de Lya. 
SNIA CARVALHO 
Rio de Janeiro (RJ), via smartphone 

H excesso de ordens, mas nenhum progresso no Brasil. Estamos pagando a dvida tomando outro emprstimo  e, o pior, com juros muito mais altos. Vida longa e mente ativa a Lya para que nos presenteie sempre com reflexes profundas e agregadoras de valores em uma sociedade que anda sem rumo e com a mente nunca antes to voltil. 
VALDOMIRO A.A. NETO 
Cabo de Santo Agostinho, PE 

LUIS STUHLBERGER
Como gestor de investimentos, o financista Luis Stuhlberger tem bem mais acertos do que erros em seu histrico. Isso faz com que seja considerado por muitos o melhor gestor do Brasil. Sua anlise a respeito do pas  perfeita e, infelizmente, pouco alentadora ("Flertando com o abismo", Entrevista, 10 de junho). A viso mope de um Estado grande e intervencionista praticada pelo governo petista nos ltimos anos tem conduzido a economia para um resultado desastroso. 
VICTOR LUIS DE ALMEIDA VOHRYZEK 
Rio de Janeiro, RJ 

No sou economista nem financista, apenas um advogado que v de camarote as barbaridades cometidas h mais de uma dcada pelo governo brasileiro. E, quando falo governo, na verdade me refiro a este monstro, resultado da promiscuidade relacional entre o Executivo e o Legislativo ptrios, lato sensu. As opinies lanadas por esse investidor se coadunam perfeitamente com os meus pensamentos sobre o nosso presente e futuro como nao. Nada menos que uma dcada perdida  essa ser a herana maldita do governo do PT. Parabns pelas acertadas palavras. 
RENE RIBEIRO 
Salvador (BA), via tablet 

BNDES 
O governo do PT fica posando de bonzinho ao emprestar, via BNDES, dinheiro dos pagadores de impostos brasileiros a pases "camaradas" de situao financeira duvidosa e de risco indesejado quanto ao retorno dos capitais emprestados, mas deveria, primeiramente, concluir as obras de infraestrutura necessrias ao desenvolvimento do Brasil, como a transposio do Rio So Francisco, a Rodovia Transamaznica... ("O banco camarada", 10 de junho). 
ANTONIO ARAJO DA SILVA 
Belm, PA 

HERANA DE JOSEPH BLATTER 
Ao lermos a reportagem "A Fifa  aqui" (10 de junho) e fazermos um paralelo com a situao da sade, educao e infraestrutura, s podemos concluir que o Brasil  dirigido por moleques irresponsveis. Todos os dias h pessoas morrendo em corredores de hospitais, faltam mdicos, remdios, aparelhos, enfim,  o caos instalado. Educao e infraestrutura dispensam comentrios. A os governantes insanos ignoram tudo isso e investem fortunas na realizao de uma Copa do Mundo. Quando ser que teremos governantes decentes que sabero distinguir o que  prioridade para o povo? 
DOMINGOS SVIO PEREIRA 
So Paulo, SP 

A reportagem "A Fifa  aqui" comete um equvoco. O valor da reforma do estdio Mineiro no ficou 63% acima do previsto. O oramento referencial das obras do Complexo do Mineiro foi de 654.559.392,92 reais e incluiu obras externas (esplanada, passarela entre Mineiro e Mineirinho e estacionamentos). O consrcio Minas Arena assumiu esse compromisso, construiu e entregou a obra no prazo, exatamente como estabelecido no contrato de PPP. 
ANDR LUIS SANTANA DE MORAES 
Diretor-presidente da Minas Arena 
Belo Horizonte, MG 

REFUGIADOS NO BRASIL 
Alguns estrangeiros acham apoio em meio s mesquitas de So Paulo, recebem uma ideologia embutida na pregao religiosa, e pronto! Estaro preparados para dar a vida pelo Isl. Mas o que causa mais espanto  que, subliminarmente, a primeira coisa que fazem no pas que os recebeu  e lhes deu transporte para uma grande cidade, forneceu documentos...   pisar na bandeira nacional. No bastasse o estrago causado pelos nossos polticos corruptos, agora somos obrigados a ver registrados, por cmeras de uma revista de circulao nacional com repercusso internacional, ps calados com sandlias pisando em nosso smbolo maior. A foto publicada nas pginas 92 e 93 da reportagem "Bem-vindos ao Brasil... e virem-se" (10 de junho) representa bem o que resta de nosso orgulho nacional, de nossa moral: no passa de pano de cho para ser usado por estrangeiros! Mas devemos nos calar em nome do "politicamente correto"... 
ALFONSO GARDINI 
Por e-mail 

MINAS GERAIS 
A respeito da reportagem "Duas mulheres e um segredo" (10 de junho), o Partido dos Trabalhadores de Minas Gerais (PTMG) esclarece que pedir  Justia a abertura de investigao para apurar a suspeita de fraude de que foi vtima a ex-candidata a deputada estadual pelo PT Helena Maria de Sousa. Segundo reportagem da imprensa local de Minas, as contas de campanha de Helena Maria podem ter sido adulteradas pela contadora Rosilene Alves Marcelino, filiada ao DEM e com atuao intensa nas redes sociais contra o PT e seus filiados. Essa contadora assumiu, de prprio punho, o suposto erro que ocasionou tantas especulaes. 
MARIA APARECIDA DE JESUS 
Presidente do PT-MG 
Belo Horizonte, MG 

HENRY MARSH 
Fiquei emocionada com a reportagem "Confisses brutais" (10 de junho), sobre os relatos do neurocirurgio ingls Henry Marsh. Como  possvel um mdico  que dedicou toda a sua vida a diminuir o sofrimento humano, a tirar a dor e a reabilitar seres humanos  terminar sua carreira dizendo que foi "arrogante" ou que teve "um profundo sentimento de vergonha"? Que sofrimento sem tamanho vive esse mdico que carregou uma das carreiras mais difceis da sociedade moderna, que teve coragem, que no aceitou o sofrimento com conformismo, que saiu do seu conforto e foi  luta! As mos de mdicos dedicados e corajosos como as do doutor Henry Marsh devem ser valorizadas. No merecem condenao! Nossa profisso, doutor Marsh,  muito difcil, contudo maravilhosa! Doutor Marsh, nunca se condene, viva a sua aposentadoria com toda a alegria, pois deixou seres humanos bem mais felizes  e, se o destino usou as suas mos, o senhor cumpriu o seu papel de forma nobre e certamente acertou muito mais do que errou! 
ELIANE HENRIQUES MOREIRA ALFANI 
Equipe de Coordenao da Pediatria Hospital So Luiz  Anlia Franco 
So Paulo, SP 

PARA SE CORRESPONDER COM A REDAO DE VEJA: as cartas para VEJA devem trazer a assinatura, o endereo, o nmero da cdula de identidade e o telefone do autor. Enviar para: Diretor de Redao. VEJA - Caixa Postal 11079 - CEP 05422-970 - So Paulo - SP: Fax: (11) 3037-5638; e-mail: veja@abril.com.br. Por motivos de espao ou clareza, as cartas podero ser publicadas resumidamente. S podero ser publicadas na edio imediatamente seguinte as cartas que chegarem  redao at a quarta-feira de cada semana.


1#6 BLOGOSFERA
EDITADO POR KATIA PERINI kperini@abril.com.br

VEJA MERCADOS
GERALDO SAMOR
BOLSA BISPO
Do Minha Casa, Minha Vida ao financiamento estudantil, todo brasileiro est sofrendo na pele o aperto do gasto pblico  enquanto o pas aguarda um aumento de impostos que os economistas dizem ser inevitvel. Mas algumas igrejas evanglicas e seus pastores esto prestes a conseguir o oposto: um alvio tributrio que s a Divina Providncia  ou o deputado Eduardo Cunha  poderia prover. www.veja.com/vejamercados 

POLTICA COM CINCIA
SRGIO PRAA
THE SPEAKER
No h, nos ltimos tempos, parlamentar mais criticado do que Eduardo Cunha. Sua posio como representante de interesses empresariais  pouco desejvel, mas est longe de defini-lo. Acusado de jogar o pas em um "parlamentarismo branco", Cunha est muito mais prximo de um speaker da Cmara dos Deputados americana do que de um primeiro-ministro europeu, www.veja.com/sergiopraca 

QUANTO DRAMA!
PATRCIA VILLALBA
SETE VIDAS
Miguel (Domingos Montagner), na novela Sete Vidas,  um explorador acostumado  liberdade, arredio  ideia de formar famlia e, pior, traumatizado pela morte da me. Aquele tipo de homem que o bom-senso manda a gente desprezar. Mas quem tem coragem? Lgia (Dbora Bloch) no tem. www.veja.com/quantodrama 

CIDADES SEM FRONTEIRAS
OLHA PRA FRENTE!
Nos Estados Unidos, tombos causados porque a pessoa est absorta vendo o celular em vez de olhar a rua por onde anda j correspondem a 10% dos atendimentos a fraturas em prontos-socorros, de acordo com a Universidade Buffalo, de Nova York. No Brasil, no  diferente. O brasileiro est entre os que passam mais tempo encarando telas eletrnicas  quase oito horas dirias. Com isso, praas, ruas e parques parecem ter submergido no mar das redes sociais. A paisagem urbana perde lugar para a telinha, que, com todas as suas variaes, sempre ser mais montona do que  uma caminhada. Apesar de tudo isso, especialistas garantem que h remdio: basta olhar para a frente. www.veja.com/cidadessemfronteiras

INOVAO
COZINHA ITALIANA REINVENTADA
A preservao da herana histrica e da tradio  um argumento adotado contra a inovao em mercados tradicionais como o da gastronomia, especialmente em pases como a Itlia. Mas essa "inovao tradicional"  que respeita e ressalta as tradies  pode produzir resultados modernos e de altssima qualidade, conforme atesta o pequeno e estrelado restaurante do chef italiano Massimo Bottura, na cidade de Modena, o Osteria. A vitela preparada por Bottura, por exemplo,  apresentada sobre uma composio de molhos que espelha um quadro do artista plstico Damien Hirst (fotos). www.veja.com/inovacao 

SOBRE PALAVRAS
UM CANHOTO TEM... DESTREZA?
Um canhoto pode, sim, ser extraordinariamente destro (no sentido de "hbil") naquilo que faz  no caso de certos esportes, o chamado sinistrismo chega a ser considerado uma vantagem. No entanto, como em seu sentido original as palavras esto em oposio direta, dizer que um canhoto como o argentino Messi tem destreza pode soar meio gauche  a menos que se queira justamente explorar o humor paradoxal da expresso. Para isso existem sinnimos como "habilidade" e "percia".
www.veja.com/sobrepalavras 
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2# PANORAMA 17.6.15

     2#1 IMAGEM DA SEMANA  O TAMANHO DO PROBLEMA
     2#2 DATAS
     2#3 CONVERSA COM VIVIANY BELEBONI  A CRUZ DA DISCRDIA
     2#4 NMEROS
     2#5 SOBEDESCE
     2#6 RADAR
     2#7 VEJA ESSA

2#1 IMAGEM DA SEMANA  O TAMANHO DO PROBLEMA
Diante de tantas complicaes globais, mexer no clima da Terra parece moleza.

 Expectativas, discusses, promessas e decepes. Essas so as quatro fases que marcam o noticirio de toda reunio de cpula do G7, grupo das principais naes desenvolvidas do mundo. A mais recente, realizada na Baviera, na Alemanha, pretendia encontrar solues para criar empregos em uma economia global em lenta recuperao, manter a Unio Europeia prspera e forte (apesar da perspectiva de calote da Grcia), fazer frente ao avano russo na Ucrnia, combater os terroristas do Estado Islmico e reverter o aquecimento global. Os lderes mundiais debateram durante dois dias e, apesar da vista inspiradora das montanhas nevadas de Wetterstein ("pedra do clima", em alemo), nos Alpes, acordaram metas modestas para todos os itens, menos um. No comunicado conjunto, o G7 prometeu cortar para zero a emisso de carbono at o fim do sculo. Quando os homens e as mulheres mais poderosos do mundo se convencem de que frear o aumento da temperatura mdia da Terra  o desafio mais fcil de ser resolvido, tem-se uma ideia sombria do tamanho dos outros problemas  que Angela Merkel parecia querer dimensionar com os braos diante de um Barack Obama relaxado ou incrdulo. Ou estaria a chanceler alem exigindo que o governo americano parasse de escutar suas ligaes telefnicas? A intrigante cena rendeu inmeros memes  fotos ou montagens com frases espirituosas que se espalham pela internet. Em um deles, Angela  retratada como a protagonista do filme A Novia Rebelde. O cenrio alpino e o gesto expansivo, afinal, so idnticos. Em outro, Obama aparece recostado em uma banheira, enquanto ouve um sermo da chanceler. O melhor que o G7 produziu neste ano foi uma foto divertida. O problema  grande, mesmo. 
DIOGO SCHELP


2#2 DATAS
MORRERAM
Ornette Coleman, saxofonista e compositor americano, considerado um dos criadores do free jazz, que revolucionou o gnero musical. Nascido em Forth Worth, no Texas, ele contava que, na primeira vez que ouviu o som de um sax, no sabia do que se tratava. Incentivado pela me, passou a trabalhar  foi engraxate, por exemplo  a fim de juntar dinheiro para comprar o instrumento. Em 1959, gravou o lbum que iria inscrev-lo para sempre na histria da msica: The Shape of Jazz to Come. O disco  criticado pelo genial trompetista Miles Davis sobretudo por seu desprezo  harmonia  trazia a cano Lonely Woman, que se tornaria referncia de um novo estilo jazzstico, mais livre. At 1961 ele lanaria oito lbuns  como Free Jazz: A Collective Improvisation. No total, gravou mais de quarenta discos. Dia 11, aos 85 anos, de parada cardaca, em Nova York. 

Christopher Lee, ator londrino notabilizado por interpretar o papel de Drcula em diversas produes cinematogrficas. Ele tambm se destacou como Saruman, em Senhor dos Anis, e Conde Dookan, em Guerra nas Estrelas. Sua carreira teve incio nos anos 40, mas a consagrao s viria em 1958, na primeira atuao como o personagem de Bram Stoker, em O Vampiro da Noite, de Terence Fisher. Lee fez mais de 250 trabalhos para o cinema e a TV  incluindo A Fantstica Fbrica de Chocolate (2005), de Tim Burton, e O Hobbit (2012 e 2014), de Peter Jackson. Esteve ainda em 007 contra o Homem com a Pistola de Ouro (1974), de G. Hamilton, que considerava seu pior filme. O melhor, acreditava, era O Homem de Palha (1973), de R. Hardy. Nos anos 90, lanou-se como cantor. Em 2009, recebeu o ttulo de cavaleiro britnico. Dia 7, aos 93 anos, em Londres. 

Horst Brandsttter, empresrio alemo, responsvel pelo lanamento dos bonecos Playmobil. Nascido na Baviera, entrou para a indstria de brinquedos da famlia, a Brandsttter Stiftung & Co. KG, quando tinha 19 anos. Ao assumir o comando da companhia, passou a investir no uso do plstico. Em 1958, alcanou seu primeiro grande sucesso, com o bambol, que conhecera nos EUA. Na dcada de 70, com a crise do petrleo e a alta no preo do plstico, encomendou ao designer Hans Beck (1929-2009) um brinquedo que usasse pouca matria-prima. Assim nasceram os famosos bonecos, que j tiveram cerca de 2,8 bilhes de unidades vendidas em todo o mundo. Em 2014, o volume de negcios da empresa chegou a 595 milhes de euros (mais de 2 bilhes de reais). A companhia demorou quase uma semana para anunciar a morte de seu proprietrio. Dia 3, aos 81 anos, em Berlim. 

Euclides Gomes dos Santos, imortalizado no bordo " Cride, fala pra me", de Ronald Golias, e citado no rock Televiso, dos Tits. Ele e Golias foram amigos de infncia. "Cride" era o modo como sua me o chamava de volta para casa. Dia 7, aos 88 anos, em decorrncia de uma leucemia, em So Carlos.

 QUA|10|6|2015
RECEBEU
a Lurea Roberto Civita o presidente do Grupo Bandeirantes de Comunicao, Joo Carlos Saad. Criado pela Associao Latino-Americana de Publicidade, o prmio, concedido pela primeira vez, visa a homenagear uma personalidade que tenha atuado no desenvolvimento do mercado publicitrio e em prol da liberdade de expresso. A lurea foi entregue a Saad pelo diretor comercial da Editora Abril, Rogrio Gabriel Comprido, durante o 20 Festival Mundial de Publicidade de Gramado. 


2#3 CONVERSA COM VIVIANY BELEBONI  A CRUZ DA DISCRDIA
Aos 26 anos, a modelo transexual que provocou a indignao de catlicos, evanglicos e polticos ao simular a crucificao de Jesus na Parada Gay de So Paulo explica por que foi mal compreendida.

Voc est arrependida? 
No. Estou triste com tanta maldade. As pessoas conseguiram distorcer uma imagem bonita de sofrimento e transform-la em dio. Jamais faria algo para causar dio.  horrvel acordar com telefonemas annimos dizendo que voc deve morrer. 

Imaginou que fosse ter essa repercusso? 
Jamais. A cruz representa minorias, dor e sofrimento. Achei que iriam falar: "Olha l o traveco". No pensei que fossem me crucificar na vida real. 

Voc  religiosa? 
Sou esprita e acredito em Deus.  

Deus castiga? 
Ele sabe o que eu fiz. Se castigar, ns vamos ver. S ele pode julgar, e no os outros. As pessoas no deixam nem eu ir para o inferno em paz... 

Disseram que voc desrespeitou a religio. 
Nunca. No fui representando a religio ou Jesus Cristo. Representei a mim mesma, dilacerada. No quis agredir ningum, mas mostrar as agresses que ns, travestis, sofremos diariamente. 

Quanto tempo levou a maquiagem? 
Vrias horas. Eu fui muito chata com o maquiador porque queria que ficasse igual  paixo de Cristo, que mostrasse o sofrimento. Foi uma arte de verdade. Ficou muito real, e acho que isso chocou as pessoas. Mas tambm houve quem, entre os religiosos, me apoiasse. 

Est com raiva? 
Eu senti dio durante dois dias. No terceiro, ressuscitei dessa maldade toda. No quero esse dio para mim. As pessoas no sabem o que um travesti passa. Precisa ser muito homem para ser transexual. 

Existe cura gay? 
No. As pessoas voltam para o casulo porque no conseguem enfrentar a realidade. 

Como escolheu o nome Viviany? 
Escolhi por causa do significado. Representa vida, vitria, integridade.


2#4 NMEROS
55 centmetros de altura por 35 centmetros de largura e 20 centmetros de profundidade so as medidas do novo padro mundial para bagagem de mo dos passageiros de avio determinado pela Iata, a federao internacional de aviao. 
110 centmetros  a soma das medidas da nova bagagem, 5 centmetros a menos do que o limite fixado no Brasil pela Agncia Nacional de Aviao Civil, que analisar nos prximos meses se vai aderir ao padro da Iata. 
1 par de sapatos  o equivalente, em volume, ao espao que a bagagem de mo dos brasileiros perder com as novas regras.


2#5 SOBEDESCE
SOBE
Estados Unidos -  A extrao do xisto levou o pas a ultrapassar a Rssia e tornar-se o maior produtor de petrleo e gs natural do mundo. 
Domsticas -  O nmero de profissionais em atividade subiu pela primeira vez em oito anos, como consequncia do aumento do desemprego em outros setores. 
Cmara dos Deputados -  A Casa teve 121 votaes nos primeiros cinco meses deste ano, o maior volume desde 1995.

DESCE
Etiqueta e elegncia -  Um curso sobre os temas organizado para as primeiras-damas do Rio Grande do Norte, onde 92% dos municpios esto em estado de calamidade por causa da seca, foi cancelado depois de uma onda de protestos. 
Twitter -  Uma em cada quatro notcias publicadas na rede social  falsa ou no confivel, concluiu pesquisa americana com 60 milhes de tutes. 
FAO -  A organizao nomeou como embaixadora da nutrio a rainha Letizia, da Espanha, conhecida pela figura magrrima, atribuda a uma suposta anorexia. 


2#6 RADAR
LAURO JARDIM ljardim@abril.com.br

 BRASIL
SUSTO NA CAPITAL
Uma parte importante de Braslia est em pnico. No bojo da Operao Acrnimo, que flagrou as traficncias de Benedito Rodrigues, o Ben, ligado a Fernando Pimentel, a PF cumpriu mandados de busca e apreenso de documentos no escritrio de contabilidade de Joo Appel, um dos mais renomados contadores da capital. De l, os policiais levaram no apenas o material referente a Ben. Levaram tudo o que viram pela frente. 

 PARTIDOS 
DE OLHO EM 2018 
Acio Neves comea no dia 25, por Manaus, uma sequncia de viagens que prometem ser semanais pelas capitais e cidades mdias do Brasil. 

 GOVERNO 
"EST DIFCIL" 
A frase mais repetida por Michel Temer nas ltimas semanas quando lhe perguntam como vo as coisas : "Est difcil".  

O PANORAMA VISTO POR DELFIM 
Delfim Netto est preocupado, mas no totalmente pessimista. Estima que neste ano a inflao fechar em torno dos 8%, mas cr que no fim de 2016 ela poder ter cado para 4,5%, como pretende o BC. O que Delfim teme mesmo  a taxa de desemprego. Ser muito maior do que as pessoas esto imaginando: "Tudo indica que a rapidez do aumento do desemprego vai surpreender". Delfim avalia que o mais importante, no entanto,  Dilma Rousseff recuperar o protagonismo. "Do contrrio, ser um campo frtil para ideias malucas progredirem." As crticas ao financiamento s exportaes feito pelo BNDES, que acabou virando polmica em meio ao petrolo, so uma dessas "ideias malucas" a que ele se refere. Numa de suas imbatveis frases de efeito, Delfim resume o drama da presidente: "O problema da Dilma  que quem votou nela no est satisfeito. E quem no votou est mais insatisfeito ainda".   

 CONGRESSO 
RECUO ESTRATGICO 
Eduardo Cunha bateu o martelo: no vai mais pautar o projeto de lei que permite a sua reeleio e a de Renan Calheiros para o comando da Cmara e do Senado. Como Euncio Oliveira quer a vaga de Renan daqui a dois anos, Cunha concluiu que seria derrotado. 

 FUTEBOL 
INIMIGO NTIMO 
Ricardo Teixeira vem dizendo a interlocutores ter a certeza de que J. Hawilla tentou grav-lo assim como fez com Jos Maria Marin. H dois anos, o dono da Traffic, que aceitou colaborar com  Justia americana para desbaratar o escndalo na Fifa, o convidou para um almoo no restaurante Smith & Wollensky, em Miami. Teixeira ficou intrigado com a insistncia de Hawilla em marcar o encontro e com as perguntas feitas durante a conversa. 

NO BRASIL 
A propsito, Teixeira decidiu no voltar mais aos EUA, onde tem uma casa. Teme pisar no pas e ser imediatamente convocado a prestar contas  Justia americana.  

 MAIS MDICOS 
FINAL FELIZ 1 
Um dos mdicos cubanos que vieram ao Brasil via Mais Mdicos conseguiu mais do que um emprego por aqui: Adrian Barber encontrou o amor em terras brasileiras. Barber pretendia se casar com a farmacutica Letcia Pedroso, mas na hora do "sim" teve problemas com o cartrio da cidade de Arapoti (PR), que contestou sua habilitao ao casamento, pois as regras do Mais Mdicos o probem. 

FINAL FELIZ 2 
A Justia Federal do Paran no viu obstculos  unio, mas se declarou incompetente para julgar o processo. O caso foi ao STJ, que acaba de reconhecer a competncia da Justia paranaense no caso. Barber e Letcia podem, portanto, reunir os padrinhos e retomar a cerimnia. 

 CULTURA 
A CARTA 1 
A Controladoria-Geral da Unio (CGU) determinou que a Casa de Rui Barbosa libere o acesso  carta em que Mrio de Andrade revela a Manuel Bandeira, de prprio punho, que era homossexual. Trata-se do nico registro em que Mrio admite essa condio. Disputado a tapa por pesquisadores pas afora, o documento faz parte do acervo de Bandeira, confiado pelo poeta  Casa de Rui Barbosa antes de sua morte. Na ocasio, Bandeira pediu que essa carta jamais se tornasse pblica. A famlia de Mrio tambm no quer. 

A CARTA 2 
Temendo perder a confiana de quem no futuro decida doar seus acervos privados apostando no sigilo de alguma informao, a Casa de Rui Barbosa relutou em entreg-lo. Mas a CGU avaliou que, pela Lei de Acesso  Informao, o documento j  pblico e no cabe recurso. 


2#7 VEJA ESSA 
EDITADO POR RINALDO GAMA

Como no morri, o infarto s me trouxe coisas boas. - WALTER CASAGRANDE JNIOR, ex-jogador de futebol e comentarista esportivo, ao falar, no jornal Agora, sobre sua deciso de parar de fumar, submeter-se a uma rigorosa dieta e no beber mais. 

 mais fcil se candidatar na Fifa do que na CBF. - ZICO, ex-jogador e tcnico, ao anunciar, em coletiva no Rio de Janeiro, sua inteno de concorrer  presidncia da entidade mxima do futebol no mundo. 

Eu acompanhava a negociao de contratos quando chamado. Apenas ouvia e opinava quando era solicitado. (...) Mas eu participei, sim, algumas vezes. - MARCO POLO DEL NERO, presidente da CBF, em depoimento  Comisso do Esporte da Cmara dos Deputados. Desde o incio do escndalo da Fifa, ele garantia que sempre se limitara a atender s ordens de seu antecessor, Jos Maria Marin, a quem "considerava um irmo", sem participar diretamente de nada. 

Ele (Levy) tem de ser tratado como Cristo, que sofreu muito, foi crucificado, mas teve uma vitria extraordinria, na medida em que deixou um exemplo magnfico. - MICHEL TEMER, vice-presidente da Repblica (PMDB). 

Eu acho injustas (as crticas a Joaquim Levy) porque no  responsabilidade exclusiva dele. No se pode fazer isso, criar um Judas. - DILMA ROUSSEFF, presidente da Repblica (PT), ao comentar, em O Estado de S. Paulo, as objees de seu partido s medidas de ajuste fiscal defendidas pelo ministro da Fazenda. 

Agora sou So Cristvo, que  o santo dos transportes. Hoje  dia de So Cristvo, o padroeiro da infraestrutura." - JOAQUIM LEVY, brincando com as comparaes feitas pela presidente e pelo vice, aps a cerimnia de anncio do pacote de concesses do governo, na ltima tera-feira, 9 de junho. Em tempo: comemora-se oficialmente o Dia de So Cristvo em 25 de julho.

O jornalismo anda separado do Estado. Est l para fiscalizar o que o Estado faz, no para aceitar a definio do Estado sobre o que  ou no de interesse pblico. - ALAN RUSBRIDGER, que acaba de deixar o posto de editor-chefe do dirio ingls The Guardian, para o qual fora eleito pela redao e nele permanecera por vinte anos, em entrevista ao Valor Econmico. 

Trs coisas acontecem quando h mulheres no laboratrio: voc se apaixona por elas, elas se apaixonam por voc e, quando so criticadas, elas choram.  - TIM HUNT, prmio Nobel de Medicina e Fisiologia de 2001, durante palestra na Coreia do Sul. Diante da evidente repercusso negativa de sua grosseira declarao, ele pediu demisso do cargo de professor honorrio da University College London (UCL). 

Eu no sou uma mulher naturalmente magra. Tenho curvas e sou orgulhosa delas. Tenho lutado com dietas desde jovem. Encontrar uma que realmente funcionasse era uma dificuldade para mim. - BEYONC, cantora americana, em vdeo exibido no Good Morning America, da rede ABC, sobre seu programa alimentar vegano, o 22 Days Nutrition, feito em parceria com o seu personal trainer, Marco Borges.  

EPGRAFE DA SEMANA 
A pretexto do debate em torno da maioridade penal 
Quem perdoa uma culpa encoraja a cometer muitas outras. - PBLIO SIRO, escritor que viveu na Roma antiga (sc. I a.C.)
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3# BRASIL 17.6.15

     3#1 JUSTIA S PARA MAIORES
     3#2 A MENTE IMPULSIVA DOS JOVENS
     3#3 FCIL COMO NUM PASSE DE MGICA
     3#4 A ARCA DO EX-PRESIDENTE... 
     3#5 ...E O AMIGO NARCO
     3#6 E AGORA MAIS ESSA

3#1 JUSTIA S PARA MAIORES
Os jovens que participaram do estupro coletivo no Piau que terminou na morte de uma jovem ficaro, no mximo, trs anos internados. Isso  justo?
FELIPE FRAZO, DE TERESINA, KALLEO COURA E MARIANA BARROS

     O vdeo de trs minutos  chocante. No alto de um morro com vista para a pequena Castelo do Piau, o adolescente G.V.S., de 17 anos, conta a policiais como ele, outros trs menores e um adulto emboscaram, estupraram, torturaram e, por fim, jogaram do alto de um despenhadeiro quatro meninas que estavam no local para tirar fotos com seus celulares e post-las em redes sociais. "s 3 da tarde, tava eu, Ado (Ado Jos Silva Souza, 39 anos), I.V.I. (de 15 anos), J.S.R. (de 16 anos) e B.F.O. (de 15 anos) a em cima do morro. s 4 da tarde, chegou quatro meninas pra tirar as fotos. Ado abordou as meninas com a arma e forou elas a ter relao sexual com ele", diz. Na verdade, conforme apurou a polcia, Ado no foi o nico a estuprar as jovens. Amordaadas com as prprias roupas ntimas e amarradas a um cajueiro, elas foram abusadas por todos os cinco criminosos durante duas horas. "Em seguida, Ado pegou e levou as garotas pra beira da pedra e jogou elas l de cima", conta G.V.S. "Depois J. desceu e tentou terminar o servio que Ado no conseguiu terminar." "Que servio?", pergunta um dos policiais na gravao. "Matar as meninas. Ele ficou tacando pedra na cabea delas." As quatro amigas foram encontradas horas depois. Empilhadas umas sobre as outras, estavam desacordadas, nuas, amarradas, ensanguentadas e com cortes de faca pelo corpo. Uma delas, Danielly Rodrigues Feitosa, de 17 anos, morreu. Outra continua internada em estado grave. 
     Detidos na madrugada, os quatro jovens  velhos conhecidos da polcia pelo histrico de invaso de casas, assalto a mercearias e roubo de motos  confessaram o crime. Ado Souza, o adulto do grupo, tambm foi preso. Se condenado (foi indiciado por homicdio, tentativa de homicdio e estupro), dever ficar at trinta anos na cadeia. Os quatro adolescentes sero encaminhados a centros de correo, onde ficaro internados por um prazo mximo de trs anos e de onde sairo como rus primrios.  o que determina no Brasil o Estatuto da Criana e do Adolescente (ECA)  um dos mais lenientes conjuntos de leis do mundo destinados a lidar com menores infratores. 
     O adulto vai pegar trinta anos de cadeia. Os menores, trs anos, sendo que uma nfima parcela deles cumpre todo o perodo de recluso. Isso  certo?  errado? Tem certo e errado nessa questo? Essas so as perguntas certas a fazer quando um pas  abalado todos os dias por histrias de crimes violentos e cruis cometidos por menores de idade? VEJA se prope a abordar o problema nesta reportagem de maneira corajosa, racional e baseada em fatos  justamente o que tem faltado no debate nacional sobre a diminuio da maioridade penal. Antes de continuarmos, fiquemos alguns instantes com a constatao de Steven Levitt, professor de economia da Universidade de Chicago, autor do best-seller Freaknomics, em sua influente pesquisa de 1997 intitulada Crime Juvenil e Punio. Os achados de Levitt: Fato 1: dcadas de dados acumulados mostram que a punio a jovens criminosos diminuiu substancialmente em relao  penalizao de criminosos adultos. Fato 2: durante esse mesmo perodo a criminalidade violenta de autoria de menores cresceu quase o dobro da taxa de criminalidade violenta de autoria de adultos. Levitt se perguntou como o Fato 1 se relaciona com o Fato 2 e chegou a duas concluses. Concluso 1: "A diferena de castigos pode ser responsvel por 60% do aumento das taxas de crescimento da delinquncia juvenil". Concluso 2: "Os jovens so to suscetveis  perspectiva de punio severa quanto os adultos". Ou seja, saber que vai pegar cana brava por um longo tempo intimida igualmente jovens e adultos com intenes criminosas. Isso parece indicar que Levitt recomenda sem hesitao que os menores sejam punidos exatamente como os adultos infratores. Levitt, no entanto, se rende  complexidade da questo e sugere como ideal um sistema  em que a perspectiva de punio para o jovem seja to pesada quanto para o adulto, mas que isso seja usado no para encarcerar mais jovens, mas para "dissuadi-los de cometer crimes". 
     VEJA comparou a legislao brasileira com a de onze pases  os sete que compem o G7, o grupo das naes mais industrializadas e desenvolvidas do mundo, e outros quatro com caractersticas semelhantes s do Brasil em relao a taxas de criminalidade e  parcela de jovens na populao (veja quadro). De todos eles, o Brasil , entre os sete que fixam em 18 anos a idade a partir da qual um jovem pode ser julgado como adulto, o que prev o menor tempo mximo de internao. A pena  ainda menor na prtica. Raramente um menor infrator cumpre o prazo mximo. Um levantamento do Ministrio Pblico Estadual de So Paulo, que analisou os casos de 1552 jovens internados na Fundao Casa de agosto do ano passado ao fim de maio deste ano, descobriu que apenas oito deles ficaram mais de dois anos na instituio. Nove em cada dez jovens criminosos no passam nem sequer um ano internados. A Fundao Casa informa que a deciso  tcnica e que, para um jovem ser liberado, tem de ser submetido  anlise de uma equipe, formada por tcnicos e psiclogos, que prepara um laudo a ser enviado  Justia dizendo se ele est apto a voltar  sociedade. Na quase totalidade das vezes, o juiz acata a recomendao dos tcnicos. 
     O promotor da Infncia e da Juventude Tiago de Toledo Rodrigues, do Ministrio Pblico, no entanto, suspeita que a precariedade das instalaes destinadas aos infratores  o que vem "empurrando" tantos jovens rapidamente de volta s ruas. "A superlotao pode estar abreviando o perodo mdio de internao." A corroborar essa suspeita est um laudo tcnico da prpria Fundao Casa que diz que "ela se encontra com gargalo na movimentao de adolescentes que recebem medida de internao e depende, nica e exclusivamente, da sada de adolescentes". 
     Segundo o estudo do Ministrio Pblico, so classificados como hediondos 2,5% dos crimes cometidos por menores internados na Fundao Casa. Isso significa que, de agosto para c, o perodo compreendido pelo estudo do MP, ao menos 108 pessoas foram assassinadas, estupradas ou sequestradas por adolescentes, que, no mximo em breve, estaro de volta s ruas. E desfrutando o mesmo status de cidado honesto que os familiares de suas vtimas, dado que a lei impede qualquer registro criminal no caso de menores de 18 anos. 
     No incio dos anos 90, o ECA foi recebido com aprovao quase unnime dos brasileiros, que viam nele mais uma libertao das trevas da ditadura militar. Ocorre que,  medida que a sombra da ditadura se esvaiu, as imperfeies e os excessos da lei surgiram com mais clareza. "Mas a contaminao ideolgica da discusso permaneceu", afirma Renato Srgio de Lima, vice-presidente do Frum Brasileiro de Segurana Pblica e professor da FGV. 
     A discusso em torno da proposta de reduo da maioridade penal virou um embate ideolgico. Quem defende mudanas no estatuto  logo qualificado de "direitista" ou "fascista". Est bvio que, do jeito que esto, as coisas no podem ficar. H no Congresso trs propostas para alterar a lei  uma que ser votada na Comisso de Justia da Cmara, outra apresentada pelo governador de So Paulo, Geraldo Alckmin, e uma terceira apadrinhada pelo PSDB (veja o quadro). Que os responsveis pela mudana do estatuto esgrimam no com adjetivos, mas com dados. A reside a nica esperana de que se chegue a uma abordagem efetiva dessa tragdia. Enquanto isso, as Daniellys continuaro a ser estupradas, mortas a pedradas, jogadas de precipcios, sob o olhar leniente da Justia. 

COMO  HOJE
O Brasil tem 23.000 menores de 18 anos internados.
Desses 23.000, quase 10.000 esto em So Paulo.
Desses 10.000, 74% tinham dezesseis anos ou mais quando cometeram seus crimes.
Segundo o Ministrio Pblico do Estado de So Paulo, 2,5% dos crimes cometidos pelos menores so hediondos  como homicdio qualificado, latrocnio e estupro.
Dos que cometeram crimes hediondos, 65% tm de 16 a 18 anos.
100% desses menores infratores, assim como os quatro que estupraram as jovens no Piau, ficaro, no mximo, trs anos internados.

COMO PODE FICAR
A PROPOSTA NA CMARA - Independentemente do crime, todos os maiores de 16 anos seriam julgados como adultos.
A PROPOSTA DE ALCKMIN - Os menores que cometeram crimes hediondos teriam a pena mxima elevada de trs para oito anos, mas continuariam protegidos por lei especial.
A PROPOSTA DO PSDB - Maiores de 16 anos que cometeram crimes hediondos, trfico de drogas e outros crimes graves seriam julgados como adultos.

ISSO NO  VERDADE
7 mitos sobre a reduo da maioridade penal

1- A lei criada para punir menores infratores no Brasil  boa. O problema  que  mal aplicada 
Falso. A lei brasileira prev pena mxima de apenas trs anos para o menor infrator, mesmo que ele tenha cometido crimes graves como sequestro, assassinato e estupro. Isso faz dela uma das mais lenientes do mundo (veja o quadro). Depois de cumprida a pena (que s raramente atinge os trs anos), o menor volta  rua na condio de ru primrio. 

2- Os jovens menores de 18 anos so responsveis por menos de 1% dos assassinatos no Brasil 
Improvvel. Embora no existam dados nacionais, as estatsticas estaduais disponveis contam outra histria. A reportagem de VEJA apurou que, no ano passado, esse ndice ficou em 3% em So Paulo. Levantamento do jornal Folha de S. Paulo revelou que em sete de nove estados brasileiros a porcentagem de assassinatos cometidos por menores de idade  de pelo menos 10%. Em outros pases, esse nmero tambm  bem maior que 1%: nos Estados Unidos, a taxa  de 7%, e no Reino Unido, 18%. 

3- Dezesseis anos  uma idade to boa quanto 15 ou 14 para definir a maioridade penal  por isso, no faz sentido defender esse nmero 
Falso. Entre os jovens internados por crimes hediondos na Fundao Casa, em So Paulo, 71% tm 16 anos ou mais, segundo dados da prpria instituio. Os que tm entre 13 e 14 anos somam apenas 10% do total de internados por crimes como assassinato, latrocnio e estupro. No h atualmente na instituio nenhum menino de 12 anos que tenha cometido crimes dessa gravidade. Isso quer dizer que, entre os jovens infratores,  precisamente a faixa que comea aos 16 anos  e no 15 nem 14  que concentra o maior nmero de autores de crimes contra a vida. 

4- Menores assassinos ficam, sim, internados por mais de trs anos. Champinha, por exemplo, est detido at hoje 
Falso. O Estatuto da Criana e do Adolescente determina que qualquer menor infrator s poder ficar internado por at trs anos, no importa o crime que tenha cometido. No caso do assassino da jovem Liana Friedenbach e seu namorado, Felipe Caff, uma avaliao psicolgica concluiu que ele  portador de distrbio mental, motivo pelo qual continua internado em uma instituio especial. 

5- A experincia mostra que em pases onde houve a reduo da maioridade penal isso no contribuiu para diminuir a criminalidade 
Falso. Segundo pesquisadores, desde a II Guerra Mundial apenas em um pas, o Japo, se diminuiu a idade a partir da qual um jovem pode responder criminalmente como adulto. Essa nica experincia, portanto, no autoriza nenhuma concluso a respeito dos efeitos da reduo penal sobre a criminalidade (no Japo, pelo contrrio, a mudana coincidiu com uma queda, pela metade, dos assassinatos cometidos por menores). 

6- A reduo da maioridade penal, no entanto, no deve ter como objetivo diminuir a criminalidade, mas combater a impunidade de jovens que cometem crimes graves. A reduo da maioridade penal s faria com que os bandidos passassem a recrutar garotos menores de 16 anos 
No  possvel afirmar isso, dado o nmero insuficiente de experincias do gnero no mundo. Mas, se confirmada, a hiptese poderia ser minimizada com o aumento do rigor da pena para adultos que aliciam jovens para o crime, como prev um projeto no Congresso. 

7- A reduo da maioridade far com que crianas acabem internadas juntamente com bandidos 
Falso. Nem mesmo em pases onde crianas de 10 anos so julgadas como adultos se colocam menores condenados junto com adultos. No Brasil, todos os projetos em debate no Congresso preveem que os jovens infratores cumpram pena em instituies especiais, separados dos criminosos adultos.

CADA PAS TEM UMA SENTENA
Nenhuma das legislaes pesquisadas  to leniente com menores como a do Brasil

BRASIL
Idade a partir da qual podem ser julgados como adultos (em anos): 18
Pena mxima para menores: 3 anos de internao para todos os crimes
Como funciona: Mesmo que falte um dia para completar 18 anos, o jovem no responde pela lei penal, mas pelo Estatuto da Criana e do Adolescente.

Canad
Idade a partir da qual podem ser julgados como adultos (em anos): 18
Pena mxima para menores: 10 anos, se as sentenas forem somadas
Como funciona: A pena mxima s pode ser aplicada para crimes pelos quais adultos receberiam priso perptua.

Colmbia
Idade a partir da qual podem ser julgados como adultos (em anos): 18
Pena mxima para menores: 8 anos para assassinato e sequestro
Como funciona: At 2011, os jovens eram liberados ao fazer 21 anos. Desde ento, tm de cumprir a pena at o fim  sempre separados dos adultos.

Chile
Idade a partir da qual podem ser julgados como adultos (em anos): 18
Pena mxima para menores: 10 anos para crimes graves se tiverem mais de 16 anos, ou 5, se tiverem at 16.
Como funciona: Essa punio de at 10 anos vale para jovens a partir de 14 anos, julgados pela Justia Juvenil.

EUA
Idade a partir da qual podem ser julgados como adultos (em anos): 18 (Nesses casos, essas so as idades a partir das quais o menor pode responder como adulto, mas elas no necessariamente coincidem com a idade da maioridade penal.)
Pena mxima para menores: Priso perptua, dependendo do estado.
Como funciona: Jovens que demonstrem compreender as consequncias de seus atos podem ser julgados como adultos; h at priso perptua em 42 dos 50 estados.

Alemanha
Idade a partir da qual podem ser julgados como adultos (em anos): 18
Pena mxima para menores: 10 anos para crimes graves
Como funciona: Essa punio de at 10 anos vale para jovens a partir de 14 anos, julgados pela Justia Juvenil.

Itlia
Idade a partir da qual podem ser julgados como adultos (em anos): 18
Pena mxima para menores: 5 anos para crimes graves
Como funciona: Entre 14 e 18 anos, o juiz tem de analisar caso a caso se o jovem tem capacidade de compreender a gravidade do seu crime.

ndia
Idade a partir da qual podem ser julgados como adultos (em anos): 16 apenas para homens
Pena mxima para menores: 3 anos para todos os crimes
Como funciona: A partir dos 7 anos, os jovens j podem ser punidos. Para as mulheres, s h punio a partir dos 18 anos.

frica do Sul
Idade a partir da qual podem ser julgados como adultos (em anos): 14
Pena mxima para menores: Igual  dos adultos
Como funciona: O sistema de cortes separadas para jovens foi criado apenas em 2008.

Japo
Idade a partir da qual podem ser julgados como adultos (em anos): 14 (Nesses casos, essas so as idades a partir das quais o menor pode responder como adulto, mas elas no necessariamente coincidem com a idade da maioridade penal.)
Pena mxima para menores: Priso perptua
Como funciona: O jovem vai sendo transferido de estabelecimento  medida que envelhece; h um para quem tem at 16 e outro para quem tem at 26 anos; s a, se ainda estiver preso, passa para o sistema geral.

Frana
Idade a partir da qual podem ser julgados como adultos (em anos): 13 (Nesses casos, essas so as idades a partir das quais o menor pode responder como adulto, mas elas no necessariamente coincidem com a idade da maioridade penal.)
Pena mxima para menores: Igual  dos adultos
Como funciona: O juiz decide se o maior de 13 anos deve ou no ser julgado como adulto; dos 13 aos 15, a pena mxima  a metade da que seria para um adulto; dos 16 aos 18, pode ser igual.

Reino Unido
Idade a partir da qual podem ser julgados como adultos (em anos): 10 (Nesses casos, essas so as idades a partir das quais o menor pode responder como adulto, mas elas no necessariamente coincidem com a idade da maioridade penal.)
Pena mxima para menores: Igual  dos adultos
Como funciona: Os menores de 18 anos tambm so colocados em instituies separadas; em caso de assassinato, a pena mnima  de 12 anos de priso.

OS CONDENADOS MAIS JOVENS DO SCULO XX
Em fevereiro de 1993, dois garotos de 10 anos sequestraram e mataram um menino de 2, James Bulger, numa cidade prxima a Liverpool, na Inglaterra. Aos 11 anos, foram sentenciados a cumprir uma pena de pelo menos oito anos de priso.

COM REPORTAGEM DE VICTOR FERNANDES


3#2 A MENTE IMPULSIVA DOS JOVENS
A neurocincia explica por que os adolescentes tendem a ser quase sempre imaturos, mais mercuriais e inconsequentes do que os adultos.
FILIPE VILICIC E JENNIFER ANN THOMAS

     Quando comea a idade da responsabilidade? Ao longo da histria da civilizao, a resposta a essa pergunta sempre foi resultado de circunstncias culturais, precedentes histricos e pura convenincia. Na Grcia antiga, Slon cravou o incio da maioridade nos 21 anos, momento no qual um indivduo teria atravessado trs estgios de sete anos de desenvolvimento, criao mental da filosofia helnica para medir os ritos de passagem da infncia at a maturidade. Com o surgimento dos primeiros automveis, no incio do sculo XX, autorizava-se a dirigir qualquer um que, sentado ao volante, conseguisse pr os ps no freio  e muitos meninos de 12 anos, de pernas longas, realizavam a proeza. Foi apenas nos anos 40 que estudos de psicologia e reflexos empurraram para mais tarde, 16 ou 18 anos, a habilitao para conduzir veculos motorizados. Nesse vaivm sem preciso, adolescentes viraram adultos da noite para o dia durante a II Guerra, empurrados para o front ou forados a trabalhar cada vez mais cedo em pases de populao masculina dizimada. Os avanos cientficos, tanto do ponto de vista de estudos do comportamento como de investigao das estruturas cerebrais, permitiram oferecer sadas mais ntidas para distinguir a capacidade de discernimento de jovens e adultos. 
     Houve extraordinrio salto com a possibilidade de flagrar o crebro em atividade. Nos anos 70, o qumico americano Paul Lauterbur  depois premiado com o Nobel em 2003  inventou a mquina de ressonncia magntica. Demorou, contudo, at que a tecnologia se aprimorasse, barateasse e se popularizasse. S a partir dos anos 2000 os cientistas passaram a escanear regularmente o crebro de cobaias humanas, em praticamente todo estudo relacionado ao nosso principal rgo. Descobriu-se, ento, que o sistema lmbico, onde nascem as emoes, est amadurecido, e tem atividade intensa, j na puberdade. Mas  imaturo o crtex pr-frontal, responsvel pelo controle dos impulsos, pelas decises, maestro do chamado "papel executivo" (a capacidade de administrar emoes e tecer planos futuros). O esteretipo do adolescente inconsequente ganhou a partir da amparo comprovado.  um momento de vida afeito a um misterioso bal bioqumico, de permanente conflito entre o lado emocional, instintivo, e o ordeiro, racional. Para um adulto, salvo descontroles psquicos, h equilbrio na disputa. Entre os jovens, os sentimentos costumam vencer a batalha  pelo menos at os 20 anos, um pouco mais. E uma indagao recorrente dos legisladores, apesar das descobertas da neurobiologia, no para de gritar: quando, enfim, no  mais possvel ser condescendente com aes desmedidas tpicas da juventude?  
     A cincia ainda no sabe. Se  possvel detectar reas cerebrais ainda verdes e outras prontas,  complicado relacionar a constituio bioqumica de uma pessoa, em determinada idade, com seu comportamento. "Estamos na infncia das descobertas do crebro", diz Ronald Dahl, professor de pediatria e psiquiatria da Universidade de Pittsburgh, nos Estados Unidos. Um caminho, o mais comum,  trabalhar com estatsticas  se jovens de at 16 anos provocam mais acidentes de carro do que jovens de 18 anos, uma alternativa  pensar em mexer na maioridade. 
     Os anos passam, mas a impulsividade adolescente continua acesa, como a vontade de beijar algum repentinamente ou acelerar o carro acima da velocidade permitida. Na maioria dos casos, porm, o crtex pr-frontal, j desenvolvido, cuida de peneirar os instintos. Em consequncia disso, as decises se tornam mais racionais. Seja uma sensata, aceita socialmente, seja a de burlar a lei. O adolescente  como descrito por Shakespeare na pea Conto do Inverno: "Desejara que no houvesse idade entre 16 e 23 anos, ou que a mocidade dormisse nesse tempo, ocupado s em deixar com filhos bastardos as raparigas, aborrecer velhos, roubar e brigar". 
     Como no  possvel apagar a mocidade, elimin-la ou atravess-la sem dilemas nem dor, o melhor  entend-la, especialmente em seu atribulado convvio com as normas da sociedade. Nesse aspecto, nada  mais ruidoso do que a busca pela idade certa, considerando-se o funcionamento da mente, para determinar a responsabilidade penal. Os adolescentes conseguem distinguir o certo do errado, mas, depois que se decidem pelo segundo,  difcil que desistam. Vo em frente de um modo que um adulto no iria. Mas h um alento: um crebro novo tem o que se convencionou chamar de "plasticidade".  hbil para aprender  bobagens, sobretudo , mas aceita mudanas de ideia. Vale no banco escolar, vale na construo de valores morais. Um criminoso de 16 anos, portanto,  teoricamente mais fcil de ser "recuperado" do que um de 20. 

EMOO VERSUS CONTROLE
O avano nas tecnologias de ressonncia magntica, que hoje possibilitam visualizar o crebro em atividade, em tempo real, fez com que cientistas conclussem que a mente de um adolescente no  uma verso no evoluda da mente de um adulto.  um rgo diverso, atalho para entender o perfil impulsivo e emocional dos jovens.

CRTEX PR-FRONTAL
 Estado de maturidade: em desenvolvimento
 O que faz: a rea, mais desenvolvida em humanos, nos diferencia dos animais,  responsvel pelo bom julgamento e pelo controle de impulsos, pela resoluo de problemas, pela tomada de decises e pelo planejamento
 Os efeitos na adolescncia: h conflito entre o j maduro sistema lmbico e o verde crtex pr-frontal. O jovem  emocional, mas no doma sentimentos como um adulto.  impulsivo, no entende as consequncias de seus atos e tem dificuldade de compreender emoes alheias. Um porm: j sabe que deve respeitar as leis e compreende as razes disso.

LOBOS TEMPORAL, PARIETAL E OCCIPITAL
 Estado de maturidade: maduro
 O que fazem: processam estmulos sensoriais, a memria e a compreenso da linguagem
 O efeito na adolescncia: os jovens so quase to hbeis (por exemplo, para dirigir ou em uma competio esportiva) quanto as pessoas maduras

SISTEMA LMBICO
 Estado de maturidade: quase maduro
 O que faz: centraliza reaes emocionais
 O efeito na adolescncia: como j est desenvolvido, o sistema lmbico faz com que o jovem de 16 anos tenha emoes  flor da pele: se ele sente raiva,  intensa; se ama, ocorre o mesmo.

MENOR, MAS MELHOR
Ao longo da vida, um indivduo perde neurnios e massa cinzenta. Torna-se, porm, mais intelectual. Por qu? Os neurnios que sobram viram uma tropa de elite: so 3000 vezes mais eficientes em ligar regies do crebro e deixar as conexes fortes e rpidas. 


3#3 FCIL COMO NUM PASSE DE MGICA
A furiosa prtica de legislar para abater o crime  qualquer crime  divide os parlamentares em dois grupos: os iludidos, que tm f cega na lei, e os demagogos, que s querem voto.
ANDR PETRY

     Quando o publicitrio Roberto Medina passou dezesseis dias em um cativeiro no Rio de Janeiro, o Congresso Nacional precisou de apenas algumas semanas para reagir. Aprovou uma nova lei segundo a qual o sequestro passou a ser considerado crime hediondo, cuja punio  mais rgida. Quando uma quadrilha de policiais chacinou 21 moradores na favela de Vigrio Geral, o Congresso respondeu com outra lei: homicdio praticado por grupo de extermnio foi includo na lista dos crimes hediondos. Quando veio a pblico o escndalo da "plula de farinha", um anticoncepcional que no funcionava, o Congresso definiu que falsificao de medicamentos tambm passava a ser crime hediondo. Quando o garotinho Joo Hlio, de 6 anos, foi arrastado at a morte por um bando de criminosos no Rio de Janeiro, o Congresso fez a mesma coisa: mudou a lei para punir os assassinos com mais rigor. 
      sempre assim: quando ocorre algum crime que comove o pas, ou quando a incidncia de um crime comea a chamar ateno, deputados e senadores reagem com uma lei, sempre mais dura que a anterior. Obviamente, nenhum crime, do mais leve ao mais cruel, pode ficar impune. Mas a inutilidade da fria legiferante do Congresso est estampada na prpria realidade brasileira: somos um dos pases mais violentos do mundo e a taxa de homicdios, rodando  insana razo de 50.000 assassinatos por ano, est no padro de guerra civil. No entanto, apesar da clamorosa falta de serventia dessa pororoca legislativa, o leitor pode escrever: quando houver (e infelizmente haver) um novo crime chocante, talvez mesmo essa barbaridade cometida no Piau, algum em Braslia h de sugerir uma nova lei.  o caminho mais fcil para dar a impresso pblica de que uma providncia foi tomada.  o populismo penal. 
     Nem os prprios congressistas acreditam no furor legislativo para abater o crime. H uns poucos iludidos, com sua crena cega na lei. E h os numerosos demagogos, que esto sempre mais atentos aos instintos primitivos de cidados exaustos de violncia e crime do que interessados em encontrar solues eficazes. Em meados da dcada passada, uma pesquisa mostrou que no havia consenso entre deputados e senadores sobre as causas da criminalidade. Entrevistados, eles apontaram as mais diversas razes: sociais, psicolgicas, religiosas, econmicas, familiares, educacionais, genticas. Curiosamente, nem 10% achavam que a impunidade estimulava o crime e nenhum disse que as leis criminais eram brandas demais. No entanto, esses mesmos deputados e senadores, para os quais a impunidade e o rigor das leis no eram dados relevantes, propuseram 35 mudanas no Cdigo Penal. Delas, 34 previam penas mais duras. 
     Num pas onde j existia Estado antes mesmo de existir povo, a tradio formalista vem do bero. Nesse contexto,  at compreensvel que a canetada seja vista como sinnimo de problema resolvido ou, pelo menos, bem encaminhado.  uma forma de transferir para a esfera do direito  apenas do direito  o que, na verdade,  uma tarefa coletiva, do Estado e da sociedade. H um exemplo recente dessa disfuno. Em maro passado, entrou em vigor a lei do feminicdio, segundo a qual o assassinato de mulheres passou a ser considerado  ele a de novo  crime hediondo. A violncia contra a mulher, na forma de assassinato, estupro ou agresso fsica,  um dos horrores mais comuns na sociedade brasileira. Mais de 40.000 mulheres foram assassinadas na dcada passada, a maioria pelo companheiro ou ex-companheiro. Estima-se que todo ano acontecem mais de 500 000 tentativas ou consumaes de estupros. No entanto, a mera promulgao da lei do feminicdio no altera coisa nenhuma, a no ser aliviar conscincias.  apenas reflexo da mentalidade nociva de que a lei penal  uma panaceia capaz de resolver profundos problemas sociais. At militantes feministas dizem que a criao da Casa da Mulher Brasileira, entidade que acolhe vtimas de violncia, teve impacto mais amplo do que a Lei Maria da Penha, em vigor h oito anos. 
     A experincia ensina que  intil ter um Cdigo Penal com uma lei do feminicdio enquanto se mantm uma populao desinformada sobre a conquista civilizatria de que a mulher  igual ao homem. A eficcia da lei criminal depende da formao tica de um povo. E a multiplicao de leis penais, na realidade,  um sintoma de crescente falta de tica. O outro motivo para a tempestade de leis est no fato de que nunca prospera no Congresso o entendimento de que as transies jurdicas andam em ritmo diferente das transies culturais, sociais, econmicas. A escravido  um exemplo didtico. A transio jurdica, embora amadurecida ao longo de dcadas, materializou-se de uma hora para outra. No dia 13 de maio de 1888, os negros acordaram escravos, mas foram dormir naquela noite como homens livres. As demais mudanas  sociais, culturais, econmicas  andaram em um compasso infinitamente mais lento e, em alguns aspectos, no se completaram at os dias de hoje. As velocidades distintas entre o mundo jurdico e os demais aspectos da vida em sociedade so um alerta constante de que uma lei  apenas uma lei. No  um passe de mgica. E essa diferena de ritmo, ao ser ignorada,  o que produz essa brasileirssima realidade de leis que pegam e leis que no pegam. 


3#4 A ARCA DO EX-PRESIDENTE... 
As investigaes da Polcia Federal revelam que Lula e seu instituto receberam uma fortuna de empreiteiras envolvidas no escndalo de corrupo da Petrobras.
ROBSON BONIN

     Quando deixou a Presidncia da Repblica, Luiz Incio Lula da Silva criou um instituto com o objetivo de divulgar pelo mundo as polticas sociais desenvolvidas durante os seus dois mandatos. Sua prioridade seria tirar da pobreza as populaes carentes da frica e da Amrica Latina. Valendo-se de seu prestgio internacional e de seu gosto pelo palanque, Lula queria atravessar o Atlntico para dar palestras a chefes de Estado, sobretudo africanos, interessados em seguir a experincia brasileira de combate  fome e  desigualdade social. Sem fins lucrativos, o Instituto Lula seria movido pelo mais nobre dos propsitos. Na semana passada, documentos em poder das autoridades que investigam o petrolo, o maior esquema de corrupo da histria do pas, revelaram que essa cruzada do ex-presidente j rendeu frutos generosos  para a conta bancria do prprio Lula. Dados extrados da contabilidade da Camargo Corra, uma das construtoras suspeitas de participar do desfalque de 6 bilhes de reais dos cofres da Petrobras, mostraram que o ex-presidente recebeu 4,5 milhes de reais da empreiteira por palestras e a ttulo de doao a seu instituto. 
     Em setembro de 2011, Lula viajou a Portugal com o objetivo de levar a empresrios uma mensagem de otimismo em relao  crise econmica mundial. Autor da tese da "marolinha" econmica, ele embolsou cerca de 340.000 reais da Camargo Corra pela palestra. Em novembro de 2012, Lula partiu para a frica do Sul e Moambique. Na verso oficial, trabalharia por "cooperao em polticas pblicas e ampliao das relaes internacionais". A Camargo Corra pagou pela misso 815.000 reais. Extraoficialmente, Lula operou para reduzir resistncias dos moambicanos  atuao da empreiteira naquele pas. Quem tinha fome, no caso, era a prpria construtora. J em junho de 2013, Lula viajou a Colmbia, Peru e Equador como parte de um esforo pela unio dos pases andinos na construo de uma "Amrica Latina mais justa e igualitria". Mais uma vez, a Camargo Corra patrocinou a viagem, pagando 375.000 reais ao ex-presidente. 
     Todos os desembolsos foram realizados em nome da empresa LILS Palestras Eventos e Publicidade, que Lula abriu em sociedade com o presidente do Instituto Lula, Paulo Okamotto, notrio pagador das contas pessoais do ex-presidente. Na semana passada, os integrantes da CPI da Petrobras convocaram Okamotto. J os investigadores da Operao Lava-Jato querem saber se h vnculo entre os pagamentos recebidos pelo Instituto Lula e o dinheiro roubado dos cofres da Petrobras. Em depoimentos formais s autoridades, dois ex-executivos da Camargo Corra j admitiram o pagamento de propina em troca de contratos com a estatal. Em entrevista a VEJA, Okamotto, o brao-direito de Lula, rechaou essa suspeita (veja a entrevista). Nascido numa famlia pobre, retirante e torneiro mecnico, Lula chegou ao poder depois de empunhar a bandeira da reduo da pobreza e da desigualdade social. At hoje, apresenta-se como a reedio do pai dos pobres, o Messias que acabou com a fome no Brasil. 
      inegvel que houve melhora significativa em indicadores sociais, muitos dos quais agora retrocedem devido ao descalabro da economia.  inegvel tambm que o padro de vida de Lula mudou  para melhor, muito melhor. O ex-presidente s viaja em jatos particulares e exige hotel cinco-estrelas em todas as suas estadas. Para cultivar esses e outros hbitos, recorre a uma rede de amigos poderosos cultivada enquanto comandava a Repblica. Outra empreiteira investigada na Operao Lava-Jato, a OAS reformou um stio usado por Lula em Atibaia, no interior de So Paulo. Cliente das palestras de Lula e comandada por Lo Pinheiro, amigo do ex-presidente, a OAS tambm construiu o luxuoso trplex que a famlia do ex-presidente tem no Guaruj. De quebra, assumiu a obra de alguns apartamentos que deveriam ter sido construdos por uma cooperativa ligada ao PT, a Bancoop, que deu o cano em seus clientes. O ex-presidente dessa cooperativa e patrono do calote  o ex-tesoureiro petista Joo Vaccari Neto, preso sob a acusao de coletar propina das empreiteiras investigadas no petrolo. A OAS tambm  uma das clientes da empresa de Lula. E ainda tem a Odebrecht, a maior empreiteira do pas. Na semana passada, o jornal O Globo revelou que o Itamaraty pretende manter em segredo documentos oficiais que podem ligar o ex-presidente  empreiteira. Por qu? H milhes de hipteses. 
     Alm das palestras que renderam cerca de 1,5 milho de reais a Lula, a PF descobriu na contabilidade da Camargo Corra trs repasses de 1 milho de reais ao Instituto Lula. O ex-presidente e a empreiteira alegam que esses 3 milhes de reais seriam "ajuda institucional" da empresa para a entidade. Na contabilidade da Camargo Corra, no entanto, pelo menos uma parcela  registrada com um nome diferente  e bem mais sugestivo: "bnus eleitoral".  exatamente o significado disso que as autoridades querem desvendar. Na quinta-feira, na abertura do 5 Congresso do PT, Lula zombou indiretamente das denncias de corrupo, lembrando  plateia amiga que o partido venceu as quatro ltimas disputas presidenciais. Sob o pretexto de ter sido orientado "a no falar com o fgado", ele no mencionou, no entanto, o petrolo, a priso de companheiros nem os pagamentos recebidos da Camargo Corra. De bobo, Lula no tem nada. Ele sabe que no  hora de provocao desnecessria s autoridades que esto em seu encalo. 

LULA NO  MILIONRIO
O presidente do Instituto Lula, Paulo Okamotto, afirma que as palestras de Lula so seu ganha-po e nega que o ex-presidente faa lobby para empreiteiras investigadas na Lava-Jato. 

As palestras remuneradas so uma atividade comercial? 
O presidente faz muitas palestras para vrias empresas. Ex-presidente da Repblica no tem salrio. Ento, como so atividades empresariais, a gente cobra um cache. 

Foi ideia do prprio ex-presidente ganhar dinheiro com palestras? 
Eu peguei essa ideia de ex-presidentes americanos, europeus e at dos ex-presidentes aqui do Brasil. E foi uma maneira de pedir doao para o instituto. O que eu acho estranho so as crticas. Por que s ao PT? Por que s ao Lula? Por que no a outras organizaes? Eles s deram dinheiro para ns? 

Quanto o ex-presidente j faturou? 
No temos ainda um levantamento. 

O fato de as doaes virem de empreiteiras investigadas na Operao Lava-Jato no causa constrangimento? 
No so s as empresas envolvidas nessa investigao que doam ao instituto. Infelizmente, apareceu esse episdio. 

O ex-presidente Lula vai vir a pblico explicar? 
Eu sou o presidente do instituto. Sou um dos mentores do instituto e da LILS. Estou  disposio para esclarecer tudo. 

 o prprio ex-presidente quem negocia os valores? 
Quem decide todos os detalhes dos contratos, da logstica e dos valores sou eu. 

O ex-presidente est milionrio? 
O que  milionrio para voc? O ex-presidente conseguiu ter recursos para fazer frente s suas necessidades, que so muitas. Mas no  o objetivo de Lula ficar milionrio. 

Ao usar sua influncia para defender as empreiteiras no exterior, Lula no faz lobby? 
Ns no somos uma empresa de lobby nem de consultoria. Ns falamos do Brasil, do que ns fizemos, da nossa capacidade. 


3#5 ...E O AMIGO NARCO
Investigado por trfico de drogas, o deputado chavista Diosdado Cabello foi recebido pelo ex-presidente Lula na mesma semana em que a PF desmontou uma quadrilha que lavou mais de 3 bilhes reais da Venezuela no Brasil.
LEONARDO COUTINHO

     O chavista Diosdado Cabello, presidente da Assembleia Nacional da Venezuela,  investigado pelas autoridades americanas por envolvimento com uma das maiores redes de trfico de cocana do mundo, o Cartel dos Sis. Em janeiro passado, seu ex-guarda-costas Leamsy Salazar, atualmente sob proteo da DEA, a agncia antidrogas dos Estados Unidos, revelou que o deputado chefia a estrutura responsvel pela exportao de cerca de 90% de toda a cocana produzida pelas Foras Armadas Revolucionrias da Colmbia (Farc). Na semana passada, Cabello fez sua primeira viagem internacional em dois anos. A ltima foi para Cuba, em junho de 2013, logo depois da morte do presidente Hugo Chvez. Cabello tem, justificadamente, medo de ser preso no exterior, mas sentiu-se seguro para vir ao Brasil. Foi bater na porta do ex-presidente Luiz Incio Lula da Silva, que o recebeu no apenas uma, mas duas vezes em quatro dias. As imagens do encontro foram distribudas por Cabello pelo Twitter. De resto, sua passagem pelo Brasil no mereceu sequer uma nota nos veculos de comunicao controlados pelo governo venezuelano. 
     Dois dias depois de Cabello desembarcar em So Paulo, a Polcia Federal deflagrou uma operao que resultou na priso de onze pessoas ligadas a uma rede de lavagem de dinheiro e evaso de divisas que, a partir da Venezuela, fez ingressar de forma fraudulenta 3 bilhes de reais no Brasil (leia detalhes sobre a atuao da quadrilha). Segundo a PF, o grupo simulava exportaes para a Venezuela para justificar a entrada de capitais. A fraude  uma reedio de um modelo de evaso de divisas clssico no chavismo. Nos ltimos anos, foram descobertas outras rotas de remessa de dinheiro que se valiam de exportaes e empresas-fantasma. Mais de 800 milhes de dlares foram desviados em operaes fictcias com o Equador e outros 33 milhes com o Panam. "O esquema descoberto no Brasil  resultado da combinao de um sistema de cmbio pouco transparente com a falta de controle dos sistemas de exportao", diz o economista Jos Guerra, professor da Universidade Central da Venezuela. Entre os detidos na operao da PF, apelidada de Porto Victoria, est Allan Simes Toledo, ex-vice-presidente do Banco do Brasil, demitido em 2011. Toledo foi preso na quinta-feira 11, no Aeroporto de Guarulhos, quando esperava o desembarque de um empresrio venezuelano que se juntaria  comitiva de Cabello. 
     A coincidncia entre a visita de Cabello e a operao policial no pegou bem para os planos do chavista no Brasil  tampouco para o anfitrio Lula. A viagem do venezuelano tem uma dupla funo. Alm de melhorar sua reputao no exterior e, principalmente, na Venezuela ao ser recebido por Lula, o deputado pretendia testar sua situao como investigado por trfico. Ao sair da Venezuela, poderia descobrir se h um mandado internacional de priso contra ele. A probabilidade de que viesse a ser detido no Brasil, um pas governado por um partido alinhado ao chavismo, era mnima. Quando a ordem de captura passasse pelo Ministrio da Justia, os amigos petistas o avisariam e ele sairia do pas a tempo. Um oficial americano que participa das investigaes do Cartel dos Sis disse a VEJA que a estratgia de Cabello  um ato desesperado. Caso existisse uma ordem de captura contra ele, ela jamais seria executada no Brasil. "Agimos quando temos a garantia de que vamos prender o acusado", diz o oficial. H um ms, o jornal americano Wall Street Journal publicou uma reportagem, a partir de entrevistas com procuradores de Nova York, confirmando que Diosdado Cabello  o eixo de uma investigao sobre trfico de drogas nos Estados Unidos. 
     Oficialmente, Cabello veio ao Brasil para renegociar a dvida de seu pas com fornecedores brasileiros. No incio deste ano, o atraso nos pagamentos s empresas brasileiras era de cerca de 5 bilhes de dlares, mais do que o total exportado pelo Brasil  Venezuela em 2014. Cabello tambm pretendia atrair investimentos para a Venezuela, razo pela qual visitou uma fbrica de celulose, duas plantas de abate de bovinos e frangos e a sede da JBS, a maior exportadora de carnes para a Venezuela. 
     O Itamaraty, como  de praxe, no foi comunicado da visita. O nmero 2 do chavismo estava acompanhado do ministro da Economia, Rodolfo Torres, e do irmo, Jos David Cabello, que, alm de ministro das Indstrias,  diretor do Centro Nacional de Comrcio Exterior (Cencoex). Esse  o rgo que autoriza a venda de dlares a uma cotao subsidiada para o pagamento de importaes. A conivncia de funcionrios do Cencoex  essencial para acobertar operaes fraudulentas que tiram grandes somas em dinheiro da Venezuela, como a que foi revelada pela Polcia Federal brasileira na semana passada. Leamsy Salazar, o ex-guarda-costas de Diosdado Cabello, disse a procuradores americanos que, assim como o irmo, Jos David tambm integra a cpula do Cartel dos Sis e usa o aparato do Estado para movimentar as receitas do trfico. Em mais uma das "coincidncias" dessa histria, portanto, o irmo narco do amigo narco de Lula chefia o rgo venezuelano envolvido no esquema de lavagem de dinheiro desbaratado pela operao da PF na semana passada. Nada disso parece afetar a amizade de Lula com Diosdado Cabello. Isso  que  companheiro. 

A ROTA DO DINHEIRO CHAVISTA
     Na semana passada, a Polcia Federal deflagrou em So Paulo uma operao que resultou na priso de onze pessoas envolvidas em uma rede de lavagem de dinheiro que movimentou 3 bilhes de reais em trs anos. Depois de nove meses de investigaes, os delegados federais Rodrigo Sanfurgo e Alberto Ferreira Neto, de So Paulo, descobriram trinta empresas de fachada que eram utilizadas para simular a exportao de produtos do Brasil para a Venezuela. As empresas realizavam operaes de cmbio para a remessa de mercadorias que no existiam. A PF no sabe qual  a origem do dinheiro proveniente da Venezuela, que equivale a 7% das exportaes brasileiras para o pas no perodo, nem quem eram os beneficirios. Uma nova fase das investigaes foi aberta a partir da apreenso dos materiais encontrados com os operadores do esquema no Brasil. 
     O que ficou provado  que, depois que o dinheiro entrava no Brasil, essas mesmas empresas simulavam uma importao de Hong Kong para poder enviar os valores para o pas asitico valendo-se de um sistema "legal". A PF trabalha com a hiptese de que as operaes serviam para acobertar desde empresrios que queriam driblar o Fisco at o pagamento de propinas e dinheiro do trfico. Entre os detidos est Allan Simes Toledo, ex-vice-presidente do Banco do Brasil, demitido em 2011 depois de tentar puxar o tapete de Aldemir Bendine, ento seu chefe e atual presidente da Petrobras. Toledo tornou-se diretor do banco portugus Banif, uma das instituies usadas pela quadrilha para as operaes com a Venezuela. A PF o filmou recebendo comisso em seu gabinete. 
     A fraude s  possvel com a conivncia de funcionrios chavistas do Cencoex, rgo dirigido por Jos David Cabello. O Cencoex centraliza as operaes de cmbio do pas destinadas ao comrcio exterior. Com uma cotao subsidiada,  constantemente acusado de favorecer prceres chavistas. Enquanto 1 dlar  vendido no mercado paralelo a 410 bolvares, o Cencoex oferece a moeda a 6,30 bolvares. Alm de utilizarem um sistema oficial para transferir dinheiro, portanto, os criminosos pegos pela PF se beneficiavam de um sistema cambial que permitia multiplicar em 65 vezes o seu poder de compra de dlares. 


3#6 E AGORA MAIS ESSA
A CPI da Petrobras se prepara para convocar Eike Batista a esclarecer se recebeu ajuda de um scio de Jos Dirceu para conseguir um contrato milionrio com a estatal.
MALU GASPAR E THIAGO PRADO

     Com aparies restritas a rarssimas entrevistas, o ex-bilionrio e hoje recolhido empresrio Eike Batista deve logo voltar aos holofotes: corre na CPI da Petrobras um requerimento para que ele seja convocado a depor sobre conexes mal explicadas de seus negcios com o manjadssimo enredo das consultorias ligadas a gro-petistas que faturaram alto para facilitar contratos milionrios com dinheiro pblico. No caso de Eike, as suspeitas se voltam para as circunstncias em que o consrcio Integra  constitudo por sua empresa de estaleiros, a OSX (em recuperao judicial), e pela construtora Mendes Jnior (j enrolada no petrolo)  venceu a concorrncia para a fabricao de duas plataformas de petrleo para a Petrobras, a P-67 e a P-70. Preo: 900 milhes de reais cada uma. Com as obras se arrastando, at hoje no ficaram prontas. 
     O Integra abocanhou o contrato em agosto de 2012. Meses depois, foi sua vez de contratar  pagou comisso de 4,5% da quantia citada no acordo, ou 6 milhes de reais, a uma empresa de consultoria, a Isolux/Tecna. O trabalho consistia em fazer um levantamento de fornecedores que oferecessem certos produtos a preos que coubessem no oramento de 132 milhes de reais. Ocorre que a Isolux/Tecna recebeu sua comisso, mas no prestou servio algum  fato confirmado a VEJA por dois ex-executivos do consrcio.  justamente para esclarecer se existe algum vnculo irregular entre os dois negcios que o deputado Altineu Crtes (PR-RJ) apresentou o requerimento de convocao de Eike  CPI. No repertrio de dvidas, o som de moedas tilintando se acentua quando se sabe que o diretor da Isolux, Jlio Oliveira Silva,  ligadssimo a um personagem bastante conhecido dos investigadores da Operao Lava-Jato  o ex-ministro da Casa Civil Jos Dirceu, que recebeu entre 2006 (um ano aps deixar o governo Lula) e 2013, segundo se comprovou at agora, 29 milhes de reais em consultorias a clientes como as empreiteiras OAS, UTC, Engevix, Galvo Engenharia e Camargo Corra, todas enredadas no esquema de corrupo da Petrobras. To ligados so os dois que, no mundo do lobby brasiliense, Silva  chamado de Jlio do Z Dirceu. 
     Quando negociou pela Isolux o contrato com o Integra de Eike, em 2013, o sergipano Silva era ao mesmo tempo scio de Dirceu em outra firma, a JD Consultoria. Movimento tpico das voltas que a mquina petista d, na mesma Isolux prestava servios a ex-ministra chefe da Casa Civil Erenice Guerra. E no Palcio do Planalto, por onde tanto Erenice como Jos Dirceu j haviam passado, ainda batia ponto na poca a mulher de Silva, Antonieta, como funcionria da Secretaria-Geral da Presidncia. Procurados, nem Eike, nem o consrcio Integra, nem a Petrobras quiseram se manifestar. J a Isolux informou que Jlio Silva cuida exclusivamente de temas comerciais e nunca teve ligao direta com os contratos envolvendo o consrcio das plataformas. Mas teve, sim: VEJA obteve e-mails que detalham negociaes entre a Isolux e o Integra, e Silva aparece l, copiado nas mensagens. 
     Ex-funcionrio do Serpro, o servio de processamento de dados do governo federal, Jlio Silva trabalhou por anos em Braslia como representante de uma multinacional de informtica. Na funo, selava contratos com o setor pblico, e se aproximou de petistas importantes. Em 2009, largou tudo para virar "consultor de negcios"  um eufemismo para lobista  de Dirceu. Eventualmente, tornou-se scio na JD e passou a ser assediado por todos os que buscavam desatar ns com o governo. N era o que no faltava  OSX de Eike, projetada para atender a uma demanda nunca concretizada de navios por parte da petroleira do empresrio, a OGX  da a importncia da encomenda da Petrobras para a sua sobrevivncia. Na CPI, os scios do Integra vo ter de explicar exatamente como venceram a concorrncia, por que contrataram a consultoria de Jlio Silva e que tipo de servio, afinal, a Isolux prestou. To falante no passado,  pouco provvel que Eike Batista, desta vez, se sinta  vontade diante das questes que lhe sero feitas no Congresso. 
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4# ECONOMIA 17.6.15

     4#1 MELHOR, MAS LONGE DO IDEAL
     4#2 A RADIOGRAFIA DO ESTRAGO
     4#3 A AZUL NO CU DA TAP
     4#4 BYE BYE, BRAZIL

4#1 MELHOR, MAS LONGE DO IDEAL
O plano do governo para os transportes, apesar de ser diminuto diante da precariedade do pas na infraestrutura, traz como boas-novas a reduo da interferncia estatal e o incentivo ao investimento privado.
MARCELO SAKATE

     Os governantes reeleitos procuram usar o seu segundo mandato para colher os resultados e dar continuidade aos planos iniciados nos quatro anos anteriores. No Dilma Rousseff, entretanto. Ao menos no campo econmico, a presidente tem se dedicado a refundar o seu governo. A mais recente reviravolta foi feita na infraestrutura. O novo programa federal de privatizao na rea de transportes, apresentado na semana passada, foi, em sua essncia, um relanamento do plano divulgado h trs anos, cujos resultados ficaram bem abaixo das metas. As obras nas ferrovias e nos portos no avanaram, e alguns trechos de rodovias ficaram sem investimentos. Apenas nos aeroportos o saldo foi positivo, ainda que muitos projetos estejam atrasados. O plano anterior no funcionou principalmente porque o governo decidiu interferir diretamente em aspectos como a taxa de rentabilidade das empresas e o preo das tarifas, afugentando o interesse dos investidores privados. Agora, diz Dilma, tudo ser diferente. Haver concorrncia livre para os interessados, e ganharo aqueles que oferecerem o maior valor. Os subsdios estatais tambm diminuram. No se fala mais em "modicidade tarifria" ou "tarifas sociais". O modelo, agora, ser idntico ao feito anteriormente em governos do PSDB e que, at as eleies, era fustigado pelo PT. Com reviravoltas assim, classificadas por alguns como estelionato eleitoral, no surpreende o desconforto das lideranas de seu prprio partido. 
     Para o bem do pas, entretanto, o novo pacote traz notcias positivas. A estimativa oficial  que os projetos envolvam investimento de 198 bilhes de reais, dos quais 69 bilhes at 2018. Sero transferidos para a iniciativa privada a administrao de rodovias, ferrovias, aeroportos e portos e o direito de explorao comercial, mediante o pagamento de valores estabelecidos em leilo e o compromisso com a construo de trechos de ligao e de terminais e a realizao de melhorias como a duplicao de estradas. O otimismo com as boas-novas, entretanto, deve ser dosado pela realidade, diante das dificuldades costumeiramente enfrentadas pelo Estado brasileiro quando se trata de tirar boas ideias do papel e concretiz-las. H muitos obstculos a ser superados, da confeco de estudos que atestem a viabilidade dos projetos  execuo das obras nos prazos previstos. Alm disso, mesmo que o programa se mostre bem-sucedido em sua maior parte,  preciso esclarecer que ele vai apenas amenizar a carncia de uma malha de transporte de qualidade no pas. 
     O Brasil investe anualmente cerca de 150 bilhes de reais em infraestrutura, o que representa 2,5% do PIB.  muito pouco. Estudos estimam que seria necessrio investir ao menos o dobro para eliminar os gargalos na logstica brasileira. Para acelerar o ritmo e aproximar o pas do padro asitico, seria necessrio triplicar esse valor. O plano do governo, apesar de seus nmeros aparentemente impressionantes,  na verdade bastante tmido. Dos 198 bilhes de reais anunciados, apenas 20 bilhes, se tanto, devero ingressar na economia no prximo ano, o que representa um nfimo 0,3% do PIB. Os estudos sobre as rodovias s devem ficar prontos em 2016. Por fim, existem todas as barreiras  implementao. "No h apenas a necessidade de ampliar os investimentos.  preciso melhorar a eficincia com que so realizados", diz o especialista em infraestrutura Cludio Frischtak, da consultoria Inter B, em relatrio de anlise sobre o plano. "O pas desperdia um grande volume dos recursos que aplica por causa das dificuldades de execuo concentradas no setor pblico." 
     Embora modesto, o novo plano tem o mrito de, desta vez, seguir na direo correta. As concesses de obras ao setor privado tambm possuem o poder do efeito multiplicador, por irradiar novos projetos e estimular a economia. "Agora podemos dizer que haver mais negcios na rea de infraestrutura", afirma Frederico Turolla, da consultoria Pezco Microanalysis. "Os efeitos, entretanto, demoraro a ser sentidos na economia. Ainda h barreiras como as questes ambientais e regulatrias." De qualquer maneira, se as novas convices do governo forem sinceras, o pacote poder dar alento a uma economia retrada pela estagnao. "Diferentemente do programa anunciado em 2012, que tinha muitos controles do governo e, portanto, despertou pouco interesse no setor privado, o novo plano  mais amigvel para o mercado, o que torna os projetos mais atraentes para os investidores", avaliou o banco suo UBS, em anlise distribuda a clientes. Nas rodovias, por exemplo, o governo antes perseguia apenas o preo mais baixo possvel para o pedgio. "Muitas vezes, o modelo de priorizar o menor valor do pedgio  demagogia", afirma Paulo Fleury, diretor executivo do Instituto de Logstica e Supply Chain (Ilos). "A empresa que ganha no faz os investimentos necessrios, e o trfego atinge a capacidade. O resultado so os engarrafamentos. Foi o que aconteceu na Ponte Rio-Niteri." 

UMA GOTA NO OCEANO 
A privatizao de ferrovias, rodovias, portos e aeroportos colocar apenas 20 bilhes de reais na economia em seu primeiro ano (valores em reais, em 2016)
PIB total 6,2 trilhes
Plano federal de concesses em transportes 20 bilhes (0,3% do PIB)
Investimentos totais em infraestruturas 150 bilhes (2,5% do PIB)

O BRASIL INVESTE POUCO
Gastos com obras na infraestrutura (transportes, saneamento, energia e telecomunicaes) em porcentagem do PIB
BRASIL 2,5%
Peru 4%
Chile 5%
ndia 6%
China 13%

O PT TUCANOU AS PRIVATIZAES
     Acuado pela oposio em audincia no Senado sobre as privatizaes, historicamente esconjuradas pelo PT, o ministro do Planejamento, Nelson Barbosa, saiu-se com esta: "Concesso  usar e depois devolver, privatizar  vender". Mas fez questo de deixar claro: "E eu no tenho nenhum problema com privatizao". Barbosa repete o discurso do PT quando diz que no faz privatizaes, como os tucanos, e sim concesses. A ginstica retrica no tem razo de ser. Internacionalmente, privatizao  o termo mais amplo empregado sempre que o Estado transfere, parcialmente ou em sua totalidade, suas atribuies ou suas empresas para a iniciativa privada.  exatamente disso que trata o plano de investimentos em infraestrutura. 
     A privatizao pode ser a venda pura e simples de um empreendimento estatal, como foi o caso do Sistema Telebrs. A venda de uma participao acionria em companhias pblicas, como o governo Lula fez com o Banco do Brasil e com a Petrobras, tambm  classificada de privatizao, embora parcial, porque o controle continua nas mos do setor pblico. Outro tipo de privatizao ocorre quando o governo concede a explorao, por tempo determinado, de um porto ou uma rodovia, por exemplo. Na semntica governista, isso no  privatizao, mas concesso. Puro jogo de cena. Ironicamente, foram os tucanos os primeiros a dizer que concesso no  a mesma coisa que privatizao, para se defender da pecha de privatistas. Agora foi o PT que tucanou as privatizaes.

COM REPORTAGEM DE ISABELLA DE LUCA


4#2 A RADIOGRAFIA DO ESTRAGO
O fracasso dos anos Dilma no resultou apenas em recesso; o aumento do endividamento do Estado inflou a despesa com juros e levar anos para ser revertido.

     A estagnao da economia, a inflao nas alturas e o aumento do desemprego so as faces mais visveis dos desmandos na economia do primeiro mandato da presidente Dilma Rousseff. Outro indicador normalmente pouco observado, entretanto, traduz de maneira ainda mais veemente o custo dos equvocos acumulados.  a dvida pblica, um dado essencial para auferir a sustentabilidade das contas do governo, especialmente quando se analisa a trajetria ao longo do tempo. No fim de 2010, a dvida bruta totalizava 2 trilhes de reais, equivalia a 51,8% do PIB e estava em queda. Desde ento, entrou em via irrefrevel de alta. Em maro passado, atingiu o patamar de 62,4% do PIB (ou 3,5 trilhes de reais). No era to alta desde 2009, e dever subir ainda mais, atingindo 66% no prximo ano, segundo projeo da agncia de classificao de risco Moody's. Isso porque o esforo fiscal engendrado pelo ministro da Fazenda, Joaquim Levy, pode se mostrar insuficiente para estabilizar a dvida, dado o ambiente econmico adverso, de fraco crescimento e juros elevados. No  por outro motivo que o Brasil esteve ameaado seriamente de perder o grau de investimento, o selo que atesta a sua capacidade de pagar as dvidas. O perigo s foi afastado no curto prazo com o plano de Levy. Sem ele,  o abismo. Por isso, Dilma fez hibernar as suas crenas sobre qual deveria ser a poltica econmica. 
     A causa primordial do aumento no endividamento est no desarranjo das contas do governo, cujos gastos avanaram num ritmo bem superior ao das receitas. Para fechar a conta, s mesmo tomando dinheiro emprestado. O repasse de recursos subsidiados do Tesouro aos bancos estatais e a interveno do governo no cmbio, por meio de compra de dlares e tambm de operaes no mercado futuro, tambm contriburam para engordar a dvida. Alm disso, os gastos com juros subiram porque a inflao fugiu do controle, e o Banco Central, comandado por Alexandre Tombini, sinalizou que elevar a sua taxa bsica, a Selic, ainda mais. De janeiro a abril, o gasto chegou a 146 bilhes de reais. "O nico meio para reduzir os juros  aumentar o resultado primrio do oramento, de tal forma que sinalize uma trajetria cadente da relao entre a dvida e o PIB", diz Mansueto de Almeida, especialista em contas pblicas. Em resumo, o ajuste precisa ser mais profundo. 

DVIDA PBLICA
O valor total do endividamento em relao ao tamnho da economia subiu ao maior nvel desde 2009
(em porcentagem do PIB)
2010 51,8%
2011 51,3%
2012 54,8%
2013 53,3%
2014 58,9%
2015 62,4%
2016 66% (projeo)

AS RAZES DO AUMENTO
Emprstimos para o BNDS
Intervenes no dlar
Aumento de gastos 

Fontes: Banco Central e Moodys

JUROS E MAIS JUROS  Tombini, do BC: o combate  inflao sair caro.


4#3 A AZUL NO CU DA TAP
O criador da terceira maior empresa area do Brasil compra a estatal portuguesa e conquista uma ponte para ampliar seus negcios no mercado europeu.
BIANCA ALVARENGA

     A TAP est para os portugueses como a Varig esteve um dia para os brasileiros. A empresa area estatal, fundada em 1945,  motivo de orgulho nacional. Sua situao financeira, entretanto, est longe de ser saudvel. A TAP enfrenta crises recorrentes e s sobrevive graas aos aportes de recursos do governo, que tenta, h mais de duas dcadas, encontrar uma soluo para ela. Com o ajuste nas contas pblicas pelo qual Portugal passou depois da crise financeira internacional, livrar-se da companhia deficitria era uma das prioridades do primeiro-ministro Pedro Passos Coelho. Na quinta-feira, o Gateway, consrcio que tem entre seus principais scios David Neeleman, fundador e presidente da brasileira Azul, venceu o processo de compra das aes que estavam nas mos do Estado portugus. Existem restries regulatrias que dificultam a fuso da empresa portuguesa com a brasileira. O negcio, de qualquer maneira, tem potencial para dar flego  expanso da Azul, uma vez que a TAP, com 77 voos semanais entre Brasil e Portugal,  a companhia europeia com maior presena nos cus brasileiros. 
     A primeira tentativa de privatizar a TAP ocorreu em 1997. Ela seria comprada pela Swissair, mas o negcio no progrediu e, quatro anos depois, a companhia sua faliu. Com a crise, Portugal, para receber a ajuda financeira da Unio Europeia, do Banco Central Europeu e do Fundo Monetrio Internacional, assinou, em 2011, um memorando em que se comprometia a vender a estatal. Inicialmente, apenas um grupo se apresentou, o Synergy, liderado por German Efromovich, dono da Avianca. A presso do sindicato e da oposio travou a transao. A nova tentativa teve incio  no ano passado, e desta vez Neeleman entrou na disputa com Efromovich. O criador da Azul venceu a disputa. Agora ter de superar as barreiras que sempre surgiram pelo caminho nesse arrastado processo de privatizao. O Partido Socialista disse que, se ganhar as eleies deste ano, cancelar a venda. 
     Neeleman, cidado americano nascido no Brasil, tem uma longa carreira na aviao comercial. J participou da abertura de trs empresas areas de baixo custo nos Estados Unidos e no Canad: Morris Air, JetBlue e WestJet Airlines. A Azul, fundada em 2008,  a terceira maior companhia no Brasil e transportou, no ano passado, 15,5 milhes de passageiros para mais de 100 destinos  incluindo dois recm-inaugurados, nos Estados Unidos. Com a TAP, ter uma ligao com a Europa. Neeleman  famoso pelas cobranas constantes e pelo ritmo intenso de trabalho, comportamento atribudo por ele ao transtorno de dficit de ateno. Para atender  restrio da Unio Europeia que probe cidados no europeus de controlar companhias areas no continente, o dono da Azul buscou um scio portugus. Humberto Pedrosa  dono do Barraqueiro, um dos maiores grupos de transportes de Portugal, detentor da concesso da rodoviria de Lisboa e de uma linha de metr. Neeleman ficou com 49,9% de participao no Gateway, e Pedrosa, com 50,1%. Pagaro 354 milhes de euros por 61% das aes da TAP. Apenas 10 milhes vo para os cofres do governo. O resto ser usado para quitar parte da dvida de 1 bilho de euros da empresa. As operaes da Azul e da TAP continuam separadas. Entre os critrios exigidos pelo governo portugus, os novos donos da TAP no podem mudar a sede da companhia. A expectativa  que a Azul e a TAP passem a funcionar em parceria. Uma fonte do setor afirma que a encomenda da Azul de cinquenta aeronaves da Embraer, feita no ms passado, pode fazer parte de um plano de renovao da frota da TAP. 

TAP PORTUGAL
Funcionrios 454
Destinos 77 (46 na Europa, 15 na Amrica latina, 14 na frica e 2 na Amrica do Norte)
Passageiros (2014) 11,4 milhes
Faturamento 2,7 bilhes de euros
No Brasil: Voos para So Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Porto Alegre, Campinas, Braslia, Salvador, Recife, Natal, Fortaleza, Belm e Manaus.


4#4 BYE BYE, BRAZIL
O ingls HSBC, depois de anos de resultados frustrantes, decide deixar o pas  e culpa o cenrio negativo.

     Ao desembarcar no Brasil, em 1997, Michael Geoghegan, o ingls destacado para dar incio s operaes brasileiras, prometeu revolucionar o cenrio bancrio no pas. "As filas so grandes demais, os juros so altos e o atendimento  ruim. Podemos mudar tudo isso porque somos um banco global", disse o executivo. Para ele, as agncias brasileiras, com suas portas giratrias e longas filas, eram um exotismo. O banco entrou no pas pela compra do falido Bamerindus. As boas intenes ruram definitivamente na semana passada, com o anncio de que o HSBC vender as suas operaes no varejo brasileiro. O principal candidato a assumir os clientes  o Bradesco, mas o Ita e o Santander tambm esto interessados no negcio. 
     O HSBC vive dificuldades l fora, em decorrncia das acusaes de ter contribudo para a lavagem de dinheiro e a sonegao de impostos de seus clientes. Pagou 1,9 bilho de dlares s autoridades dos Estados Unidos em 2012 e, no incio deste ms, concordou em desembolsar 43 milhes de dlares para encerrar as investigaes na Sua. Para superar a crise, quer cortar 5 bilhes de dlares  em custos e eliminar 50.000 postos de trabalho. Fechar as filiais dos pases que julga menos promissores, Brasil e Turquia, enquanto refora a atuao em dois emergentes nos quais o cenrio seria mais favorvel, ndia e Mxico. Ao divulgar a reestruturao, o presidente Stuart Gulliver lamentou o desempenho negativo no Brasil. Citou o fato de o pas ser uma economia muito fechada. "O quadro  diferente no Mxico, onde a economia  aberta e h onze reformas em curso", disse o executivo. 
     O banco ingls ocupa a sexta posio no ranking de bancos brasileiros.  dono tambm da financeira Losango. Sem escala, teve dificuldade para lidar com a complexidade brasileira, sobretudo na legislao trabalhista. Sua primeira surpresa foram os 7000 processos de funcionrios do Bamerindus. Geoghegan, o ento presidente, declarou: "Pensava que o esporte nacional era o futebol. Descobri que a atividade favorita dos brasileiros  processar o patro". A dificuldade em se adaptar a esse ambiente inspito selou o fim da experincia inglesa. Aos brasileiros, restar um mercado mais concentrado em trs grandes bancos privados e dois pblicos. 
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5# INTERNACIONAL 17.6.15

O 7X1 DOS ESPIES CHINESES
Hackers roubam dados de 4 milhes de funcionrios do governo americano, abrem a possibilidade de novos ataques e ajudam a proteger Pequim. Quase ningum reclamou.
DUDA TEIXEIRA

     No fim da II Guerra Mundial, uma dzia de comunistas americanos e ingleses enviou clandestinamente aos soviticos desenhos e descries tcnicas sobre o Projeto Manhattan, o programa nuclear dos Estados Unidos. Com eles, estima-se que os soviticos tenham acelerado em dois anos o caminho para a sua bomba atmica, pronta em 1949. No caso das espionagens atuais, a quantidade de dados que mudam de mos  de outra magnitude. Na ltima semana, 4 milhes de funcionrios pblicos americanos foram oficialmente notificados de que diferentes informaes sobre eles prprios, como endereos de e-mail e o nome de antigos professores de colgio, haviam sido surrupiadas por hackers da China. Todos foram orientados a mudar as senhas e a prestar ateno para no ser enganados por agentes estrangeiros. Ao todo, 14 milhes de pessoas podem ter sido afetadas, incluindo familiares e amigos dos funcionrios. 
     A base digital acessada pelos hackers pertence ao Departamento de Gesto de Pessoal (OPM, na sigla em ingls) e tem at 780 "pedaos de informaes" de cada funcionrio. O OPM guarda tambm as investigaes feitas sobre os empregados para decidir se eles podem ou no ter acesso a relatrios secretos. Pelas regras, somente aqueles considerados leais aos Estados Unidos, honestos, transparentes e discretos podem usufruir tal status. As anlises de perfis tentam descobrir qual  a propenso deles a ser coagidos por estrangeiros. Pesquisa-se se eles tm vcios, como alcoolismo e jogos, dvidas no banco ou se tiveram uma separao complicada. 
     O roubo de dados sobre os funcionrios americanos tem duas consequncias importantes. A primeira  abrir a porta para mais ataques cibernticos aos Estados Unidos. Os mais de vinte grupos de hackers chineses podem agora se debruar sobre esse mundaru de dados pessoais para invadir o computador dos funcionrios. Com e-mails falsos, assinados com o nome de colegas ou conhecidos, podem chantagear ou ludibriar suas vtimas potenciais. A segunda consequncia  fechar o prtico da China para os espies ocidentais. Entre as informaes que os funcionrios que trabalham para vrias agncias estatais, como o Departamento de Estado, precisam deixar no OPM esto seus contatos no exterior. Com o roubo digital, os chineses obtiveram uma longa lista de cidados que fornecem informaes ou tm relaes de amizade com americanos. "Esses dados possuem um valor alto na rea de contrainformao. A China pode agora identificar aqueles que trabalham com os americanos e vigi-los", diz o jurista americano David Paul Fidler, do Centro de Pesquisa Aplicada em Cibersegurana da Universidade de Indiana, nos Estados Unidos. Sem poderem contar com esses chineses, os espies internacionais tero de se esforar mais. Enquanto a China tem hackers para invadir sistemas pelo planeta, os demais pases dependem muito da espionagem tradicional. 
     A China  o pas que mais agressivamente tem coletado informaes dos americanos. Os setores mais procurados so tecnologia e pesquisas espaciais, cujos segredos podem turbinar a competitividade das estatais chinesas. A maior parte das tentativas tem origem em Xangai. Em maio, cinco membros do Exrcito Popular de Libertao da China foram indiciados por espionagem industrial nos Estados Unidos. Eles roubaram informaes sobre usinas nucleares e de energia solar. 
     Ao reagir  notcia do ltimo ataque, a Casa Branca evitou apontar o dedo acusador diretamente para Pequim. "Ns temos de ser to geis, to agressivos e ter tantos recursos quanto aqueles que esto tentando invadir esses sistemas", disse Obama durante a reunio do G7 na segunda-feira 8, na Alemanha. Apenas alguns parlamentares fizeram uma denncia direta. Os chineses responderam que as acusaes so irresponsveis e "no cientficas". Foi s. O comportamento zen no primeiro escalo tem explicao. Alm da China, Israel e Rssia e os prprios americanos promovem a espionagem. "A prtica no  ilegal pelas leis internacionais. Os pases nunca se juntaram para dar um fim nisso", diz o professor de direito americano Scott Shackelford, autor do livro Managing Cyber Attacks ("Ad-  ministrao de ciberataques", ainda no publicado no Brasil). No fim do ms, Washington receber o stimo encontro de Dilogo Estratgico e Econmico, que reunir representantes dos dois pases. Em setembro, o presidente chins Xi Jinping far a sua primeira visita aos Estados Unidos. Americanos e chineses sabem que a espionagem  do jogo e que um comrcio bilateral de 550 bilhes de dlares no deve ser ameaado por disputas digitais. 
COM REPORTAGEM DE NATHALIA WATKINS
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6# GERAL 17.6.15

     6#1 GENTE
     6#2 JUSTIA  A HISTRIA LIBERTADA
     6#3 ESPECIAL  UM HORIZONTE PARA O RIO

6#1 GENTE
FERNANDA ALLEGRETTI E THAIS BOTELHO

O HULA-HULA DA MENTE 
Nada de psicanlise nem de livros de autoajuda. A cantora LUIZA POSSI, 30, aprendeu a desapegar-se do que no lhe faz bem com uma tcnica havaiana de nome impronuncivel, a hooponopono, que ensina a esquecer recordaes dolorosas, e com a cabala. "Treino a restrio da raiva, do pessimismo e dos alimentos todos os dias. Separo, literalmente, o joio do trigo", ela diz. Luiza est  procura de um namorado. "Mas, nossa, s tenho encontrado gente boba por a", desabafa. Nesses casos, corta logo a relao. "Prefiro ficar sozinha e esperar algum que me merea." No ms dos namorados, em seu canal no YouTube, Luiza vem interpretando apenas "msicas de sofrncia", como ela mesma define. " uma data de gente feliz e de gente incomodada. Quem no tem namorado acaba no achando to legal assim." 

A BELA VITRIA DA GIRAFA DO TNIS 
No Brasil aps vencer a chave masculina de duplas de Roland Garros, o tenista mineiro MARCELO MELO, 31, est aproveitando os dias de descanso para rever a famlia, os amigos e matar a saudade da comida brasileira  especialmente de feijoada. Ele e o croata Ivan Dodig derrotaram, no sbado 6, os irmos americanos Mike e Bob Bryan por 2 sets a 1. "Por exigir movimentos muito dinmicos, o mais difcil em uma partida de duplas  identificar e alterar o estilo de jogo no momento certo", ele diz. Chamado de Girafa pelos amigos e fs, Melo, que tem 2,03 metros, diz que a altura atrapalha especialmente na hora de atravessar portas e dormir. "Em casa, mandei fazer uma cama sob medida, com 2,10 metros, mas, nos hotis, durmo com os ps para fora." 

SEM FOLHA DE PARREIRA 
O recurso no  novo na TV, mas desta vez o sucesso foi grande. No captulo de estreia de Verdades Secretas, a nova novela das 11 da Globo, o ator RODRIGO LOMBARDI protagonizou uma ardente cena de amor com a modelo ALESSANDRA AMBRSIO  e deixou o derrire  mostra para a cmera. O pblico feminino vibrou com as belas formas do rapaz, e rapidamente a cena se tornou viral na internet. Para Walcyr Carrasco, autor da trama, a repercusso causou certa surpresa. Ele esperava que a maioria dos comentrios girasse em torno de Alessandra, que, apesar de j ter dois filhos, continua com um corpo escultural e  considerada uma das modelos mais bonitas do mundo. 

APERTADOS NAS NUVENS
Com uma fortuna estimada em mais de 300 milhes de dlares, o casal de atores americanos BRAD PITT e ANGELINA JOLIE deixou atnitos os passageiros de um voo entre Paris e Nice na semana passada. O avio no tinha primeira classe nem executiva, e eles viajaram como os mortais comuns, apertados nas poltronas e acompanhados dos seis filhos, que tm entre 6 e 13 anos. O destino era o chateau que possuem no interior da Frana. A estranheza  porque o casal tem jato particular prprio. Mesmo que a aeronave no estivesse disponvel, o natural seria, como fazem os muito ricos, que eles alugassem um txi areo. Em Hollywood, comenta-se que Pitt e Angelina, s vezes, buscam a simpatia do pblico agindo como se fossem uma famlia de classe mdia normal.

BARRAQUEIROS EM AO 
Celebridades temperamentais, quando ficam irritadas, tm reaes de que at Deus duvida. Na semana passada, duas delas protagonizaram escndalos em Londres. CHESTER HANKS, 24, rapper e filho do ator Tom Hanks, arrancou uma TV de um quarto de hotel, quebrou um espelho e outros objetos, alm de perturbar os demais hspedes com gritos e rudos. J a modelo KATE MOSS, 41, foi acompanhada pela polcia ao desembarcar no aeroporto de Luton por causa de mau comportamento durante o voo. Testemunhas dizem que ela se desentendeu com a tripulao, que lhe teria negado uma dose de vodca, e se serviu da bebida que levava na bolsa. Alm disso, chamou o piloto de estpido. Detalhe: Chester e Kate j tiveram problemas por consumo de drogas. 


6#2 JUSTIA  A HISTRIA LIBERTADA
Em deciso que reafirma a liberdade de expresso como fundamento da democracia, o STF derrubou a exigncia de autorizao prvia para a publicao de biografias.
JERNIMO TEIXEIRA

     Em uma leitura superficial da quase sempre incolor letra jurdica, a deciso do Supremo Tribunal Federal na quarta-feira 10 pode at parecer modesta em seu alcance. O julgamento da ao direta de inconstitucionalidade (ADI) movida pela Associao Nacional de Editores de Livros dizia respeito  interpretao de dois artigos do Cdigo Civil que restringiam apenas um gnero literrio em particular. O princpio de fundo que movia a ao, porm,  basilar para a democracia moderna, como bem definiu, em seu voto, o ministro Lus Roberto Barroso: a liberdade de expresso. Nove ministros (Teori Zavascki estava ausente) consideraram, de forma unnime, que esse princpio no pode continuar sendo esmagado nos tribunais brasileiros. Vrias obras biogrficas, sobre personagens fundamentais da histria e da cultura brasileira  Lampio, Noel Rosa, Manuel Bandeira, Garrincha, Guimares Rosa, Roberto Carlos , tiveram sua circulao proibida. Com base no direito  intimidade garantido pelos artigos 20 e 21 do Cdigo Civil, os juzes entendiam que, para publicar uma obra do gnero, era necessria a prvia autorizao do biografado ou de seus herdeiros. Esse beija-mo acabou: o STF declarou "inexigvel" o consentimento prvio. A pesquisa histrica e o direito  informao respiram com mais folga. A ministra Crmen Lcia, relatora da ao, definiu a ressonncia histrica da deciso com uma frase das cirandas de sua infncia: "Cala boca j morreu". 
     A corte julgou a ADI procedente, mas sem "reduo de texto". Vale dizer, o Cdigo Civil segue inalterado, mas a leitura censria dos artigos 20 e 21 fica desautorizada. "O erro no estava nos artigos, mas na sua interpretao discricionria, que feria o exerccio pleno dos direitos constitucionais", diz o advogado Manuel Alceu Affonso Ferreira, que atuou na defesa de Estrela Solitria, biografia de Garrincha escrita por Ruy Castro, quando a obra foi judicialmente proibida, em 1995, em um processo movido pelas filhas do jogador de futebol. O mais emblemtico caso de censura a uma biografia foi o de Roberto Carlos em Detalhes, de Paulo Csar de Arajo, em 2007. Os advogados do cantor conseguiram que Arajo e a editora Planeta assinassem um acordo que levou ao vergonhoso recolhimento da obra das livrarias. O fato de a proibio ter se dado no por deciso do juiz, mas por um acordo assinado pelo prprio autor, complica um tanto a perspectiva de reedio. Mas Arajo diz que vai consultar seu advogado para publicar uma verso atualizada da obra. "No quero ser Moiss, que tirou o povo do Egito mas foi impedido de cruzar o Rio Jordo", diz. 
     O Instituto Amigo, de Roberto Carlos, fez-se presente na sesso do STF com a argumentao de Antonio Carlos de Almeida Castro, mais conhecido como Kakay. O advogado considera que seu ponto central foi sustentado pela corte mxima. "Nunca defendi a necessidade de autorizao prvia para biografias. Isso  censura, e tinha de cair", diz. Kakay afirma que a nica preocupao era manter o direito do biografado de processar o bigrafo quando se sentisse "ultrajado em sua dignidade". Trata-se de uma mudana substancial da posio do cliente de Kakay: antes, Roberto Carlos reivindicava ser o dono exclusivo da prpria histria. 
     As medidas cabveis para proteger quem se sinta ofendido por uma obra biogrfica chegaram a ser discutidas pelos ministros do STF. Indenizao e correo de edies posteriores esto na mesa. A certa altura dos debates, Ricardo Lewandowski aventou at a possibilidade de "apreenso cautelar" de obras. Barroso, em resposta, disse considerar o recolhimento de livros uma ideia "aterradora". O assunto pode ser complicado caso se aprove um projeto de lei em tramitao no Congresso. Inicialmente destinado a liberar a publicao de biografias, o projeto do ex-deputado Newton Lima (PTSP) ganhou uma capciosa emenda do senador Ronaldo Caiado (DEM-GO), que visa a acelerar decises judiciais sobre o tema. "O objetivo  a reduo do processo jurdico para quem considerar que houve crime de difamao e calnia", diz Caiado. Parece razovel, mas, na prtica, pode-se permitir a punio sumria da atividade do bigrafo. 
     Est garantido, de qualquer modo, o substancial avano embutido na deciso do STF: caiu a censura prvia. Agora s cabem medidas judiciais depois da publicao do livro. No cerne do julgamento estava o potencial choque entre dois princpios consagrados pela Constituio: de um lado, o direito  livre expresso e  informao, e, de outro lado, o direito  privacidade. A ponderao entre os dois foi feita de forma acurada  no voto do ministro Barroso. Ele argumentou que a liberdade de expresso deve ser tratada como uma "liberdade preferencial", pois trata-se do "pressuposto para o exerccio dos outros direitos fundamentais". Sem ela, no h direito  histria,  informao, ao conhecimento. A relatora Crmen Lcia falou, em seu voto, da nobre tradio literria da biografia, que inclui autores do porte de Suetnio e Michelet. Mas a liberdade de expresso protege at mesmo as biografias sensacionalistas dedicadas a reportar escndalos sexuais de celebridades (incidentalmente, nenhum dos livros proibidos em anos recentes no Brasil cai nessa categoria). Barroso definiu isso de forma transparente: "A liberdade de expresso no  garantia de verdade ou de justia. Ela  uma garantia da democracia. Defender a liberdade de expresso pode significar ter de conviver com a injustia e at mesmo com a inverdade". 

"No devemos retroceder nesse processo de conquista das liberdades democrticas. O peso da censura, ningum o suporta." - CELSO DE MELLO

Pela biografia no se escreve apenas a vida de uma pessoa, mas o relato de um povo, os caminhos de uma sociedade  CRMEN LCIA

A liberdade de expresso no  garantia de verdade ou de justia. Ela  uma garantia da democracia." - LUS ROBERTO BARROSO

COM REPORTAGEM DE BRUNO MEIER E SRGIO MARTINS


6#3 ESPECIAL  UM HORIZONTE PARA O RIO
Uma seleo de onze jovens atletas brasileiros com condies ideais para subir ao pdio na Olimpada de 2016
TEXTOS DE ISABELA BONFIM, ALEXANDRE SENECHAL E RENATA LUCCHESI 

Abril no Rio 
FALTAM 415 DIAS

     O primeiro sorteio para a compra de ingressos da Olimpada de 2016, cujos resultados saram na tera-feira passada, parece anunciar que os Jogos do Rio esto mesmo a, a pouco mais de um ano de seu incio. Comeou.  hora, portanto, alm de tomar todo o cuidado necessrio com a organizao da festa, de vislumbrar atletas com chance de ouro, prata ou bronze. O Comit Olmpico Brasileiro tem uma meta ousada: alcanar a indita dcima posio no quadro de medalhas, o que exigir do pas a conquista de no mnimo dez pdios a mais do que obteve nas duas ltimas edies dos Jogos. O esperado so pelo menos 28 medalhas. Como existe pouca margem para avano nas modalidades coletivas, e sabendo-se que as medalhas no futebol e no vlei so quase certeza, e j esto na conta, o ganho exponencial deve acontecer em voos individuais. VEJA consultou especialistas no Brasil e no exterior para selecionar os onze atletas das pginas a seguir, jovens entre 15 e 25 anos que renem condies ideais para o pdio carioca. 

O PRNCIPE DO MORRO
PATRICK LOURENO, 21 ANOS - BOXE
     Os irmos capixabas Yamaguchi e Esquiva Falco, bronze e prata nos Jogos de Londres, em 2012, repuseram o boxe olmpico brasileiro em patamar alcanado apenas em 1968, com o terceiro lugar de Servlio de Oliveira, pugilista que s no foi campeo mundial porque teve um descolamento de retina e abandonou os ringues. Os Falco decidiram ganhar dinheiro profissionalmente e no estaro no ano que vem no Rio. As luzes voltam-se para o carioca Patrick Loureno. Nascido no Vidigal, ele comeou a trocar socos incentivado por uma ONG local. "A criana que nasce na favela cresce vendo bandido. Fico feliz em ser uma referncia boa para meus amigos", diz o pugilista da categoria mosca-ligeiro, cujo pai, em trajetria nada surpreendente, foi assassinado numa briga de traficantes quando o atleta tinha apenas 3 anos. Patrick  o segundo colocado no ranking mundial de seu peso. Decidiu no estar nos Jogos Pan-Americanos de Toronto, em julho, para participar de um torneio que assegura vaga olmpica. " um garoto muito tcnico", diz o cubano Otlio Toledo, diretor da Confederao Brasileira de Boxe. O domnio dos fundamentos e o casamento do jogo de pernas com a distribuio de rpidos socos - os jabs - so fundamentais para o sucesso numa Olimpada, competio em que no se busca o nocaute, e sim a pontuao por meio de golpes que tocam o corpo do oponente.

O NEYMAR DE UBAITABA
ISAQUIAS QUEIROZ, 21 ANOS - CANOAGEM DE VELOCIDADE
     "A constituio fsica desses ndios (...)  robusta e sua fisionomia muito mais simptica do que a dos sabujs e dos cariris. So bons remadores e nadadores." A descrio dos brasileiros encontrados entre 1817 e 1820 no sul da Bahia est na Viagem pelo Brasil, de Carl Friedrich Philipp von Martius e Johann Baptiste von Spix, naturalistas alemes que vieram descobrir por que nesta terra em se plantando tudo d. Corte para o sculo XXI e vamos encontrar Isaquias Queiroz, medalha de ouro na prova de velocidade de 500 metros no campeonato mundial de canoagem de Duisburgo, cidade banhada pelo Ruhr. Ele  o ndio brasileiro que mostra aos alemes de hoje o que  ficar de joelhos, enfiar os remos na gua e zarpar. 
     Natural de Ubaitaba, na Bahia, lugar de gente robusta, o menino sem um rim (perdido numa queda da mangueira onde buscava uma cobra) comeou a remar no Rio das Contas, onde se descobriram dezenas de outros Isaquias bons de canoa. Mas nenhum foi to longe quanto o Sem Rim, como o apelidaram jocosamente. A glria no lhe subiu  cabea, ou quase no subiu. Isaquias, de pele e cabeleira agredidas por gua e sol, coleciona cortes de cabelo e cremes hidratantes. "J fiz at escova progressiva. Tenho de me cuidar, seno a namorada me larga", brinca. Recentemente, Isaquias fez um corte  Neymar. Em tempo, para no restar dvida: a palavra Ubaitaba, que d nome  terra natal de Isaquias,  a fuso de trs vocbulos indgenas: ub, canoa pequena; y, rio; e taba, aldeia. 

PINGUE-PONGUE NA SALA DE JANTAR
HUGO CALDERANO, 18 ANOS  TNIS DE MESA
     Todos os mesa-tenistas brasileiros de sucesso tm de se chamar Hugo? Aparentemente, sim. A modalidade virou sinnimo de Hugo Hoyama, dono de quinze medalhas em Jogos Pan-Americanos, sujeito simptico e querido, j aposentado. Agora vem Hugo Calderano, um carioca que mal parece ter entrado na adolescncia e faz estragos com a raquete de madeira. 
     Hugo, o Hugo nmero 2, comeou no pingue-pongue, a brincadeira que muitos insistem em confundir com o esporte olmpico, quando tinha 2 anos. Na infncia, o adversrio a ser batido era o pai, Marcos. Bolinhas espalhadas pela casa e a rede improvisada na mesa de jantar eram uma cena corriqueira na casa da famlia. No tnis de mesa propriamente dito, ele estreou aos 8 anos, mas s viria a ficar nacionalmente conhecido aos 15. O motivo? Ter derrotado o Hugo nmero 1. Desde ento, j galgou muitas posies no ranking mundial e, no ano passado, levou o bronze nos Jogos Olmpicos da Juventude de Nanquim, na China. 
     Pelo esporte, Calderano se mudou algumas vezes. Em 2011, saiu da casa dos pais para treinar em So Caetano do Sul, na Grande So Paulo, no mesmo clube de quem? Hugo Hoyama. O adolescente arrumou as malas novamente em 2014, dessa vez rumo  Alemanha. Para manter os bons resultados, Hugo tem um ritual: "Sempre escuto The Final Countdown, do grupo Europe, antes da partida, mentalizo as jogadas, a movimentao de pernas e a minha ttica". Tem dado certo. 

"CIELO NO E MEU DOLO,  MEU ADVERSRIO" 
MATHEUS SANTANA, 19 ANOS  NATAO
     Natao  tempo  e tempos bons, cada vez mais rpidos, bem ranqueados, so um atalho para medalha olmpica. No ano passado, Matheus Santana s entrou na piscina para sair dela com o primeiro lugar. Bateu trs vezes o prprio recorde mundial jnior nos 100 metros nado livre. A marca de 48s25, alcanada nos Jogos Olmpicos da Juventude, na China, foi a quinta melhor tambm entre os profissionais em 2014. No tardou para que o comparassem a Csar Cielo, o atual recordista mundial da prova, com a marca de 46s91, conquistada nos idos dos supermais, hoje vetados. 
     "Esse apelido de novo Cielo foi legal quando eu tinha 15 anos, hoje est um pouco ultrapassado", diz Matheus. Ele no esconde a sincera admirao pelo colega, mas avisa: "Cielo no  meu dolo,  meu adversrio. Ns competimos um contra o outro e no d para ficar s endeusando o supercampeo". Por no ser assim, ele tratou de derrotar Cielo em abril deste ano na final dos 100 metros do Trofu Maria Lenk, no Rio. 
     Alm do cronmetro, o carioca luta diariamente contra o diabetes. Por causa do descuido com a alimentao, foi cortado do Mundial Jnior de 2013 um dia antes da competio. "Comia muita besteira, e tudo se descontrolou", lembra. Recuperado, com controle dirio de acares, leva para as piscinas de Toronto, no Pan-Americano, e sobretudo no Rio, em 2016, a responsabilidade de manter a natao brasileira no topo. 

ELE TEM O MELHOR TCNICO DO MUNDO
THIAGO BRAZ, 21 ANOS - SALTO COM VARA
     Uma boa maneira de estimar as chances de pdio do paulista Thiago Braz no salto com vara  ver quem o acompanha nas pistas. Seu treinador  o ucraniano Vitaly Petrov, cuja excelncia pode ser traduzida pelo nome de dois pupilos vencedores: Sergei Bubka, o Pel da modalidade, e Yelena Isinbayeva, que dispensa apresentaes. Petrov tem em seu rol de glrias duas medalhas de ouro olmpicas (com Sergei e Yelena) e seis em campeonatos mundiais (uma delas com a brasileira Fabiana Murer). 
     Centmetro a centmetro, conquistados em um centro de treinamento na cidade de Formia, na costa mediterrnea da Itlia, onde Petrov ensina, Thiago no para de subir no ranking mundial. Desde 2013 ele  detentor do ttulo sul-americano. H duas semanas, chegou  sua melhor marca, 5,86 metros  a terceira do mundo em 2015. O recorde mundial no ano, 6,05 metros,  do francs Renaud Lavillenie. So dezenove centmetros que parecem quilmetros, mas a ambio do brasileiro no  bater recordes. Com os 5,86 metros que alcanou, ele estaria a 5 centmetros do pdio nos Jogos de 2012. "As chances do Thiago no Rio so reais", diz Fabiana, cujo marido e treinador, Elson Miranda,  tambm acompanhava Thiago. Houve desequilbrio no tringulo quando Petrov levou a promessa para a Itlia. Promessa? "Se quando a hora chegar o resultado no acontecer, no serei promessa alguma", diz Thiago, certo de estar apostando sua curta e vitoriosa trajetria na noite de 15 de agosto de 2016. 

A RESPOSTA EST NOS SOBRENOMES
MARTINE GRAEL E KAHENA KUNZE, 24 ANOS  VELA
     Do vento bom, j se sabe. Mas e sobrenome, ganha medalhas? Se for Grael, sim. Torben tem cinco, duas delas de ouro. Lars, duas de bronze. Os sete pdios na vela representam 6,5% do total de premiaes da histria olmpica brasileira. Dos 23 ouros Torben tem mais de 8% do total. O sopro agora  de Martine Grael, filha de Torben, destinada a enriquecer a estatstica. Associada a Kahena Kunze (cujo pai, Cludio, foi campeo mundial nos anos 70), Martine quer fazer das guas sujas da Baa de Guanabara o cristalino palco da glria na classe 49er FX, estreante em Olimpada. 
     A dupla nasceu para vencer. Amigas inseparveis, Martine e Kahena se conhecem desde os 13 anos e competiram em parceria pela primeira vez h seis. Frequentavam o mesmo curso de engenharia ambiental, hoje trancado. Durante as competies, moram, comem e trabalham juntas. " um casamento", ri Kahena. "Passamos tanto tempo lado a lado que tem hora que eu falo: 'Cara, no aguento mais olhar pra sua cara'." Como  s brincadeira, e o DNA dinamarqus de uma e o alemo da outra, de linhagens de grandes navegadores, no param de demonstrar eficincia, elas vo que vo. Foram eleitas as melhores esportistas de 2014  pelo Comit Olmpico Brasileiro e as melhores velejadoras do mundo pela Federao Internacional de Vela. Quando fraquejam, um telefonema, uma mensagem no WhatsApp para os pais, e tudo resolvido. "Eles tm muita experincia e volta e meia falam de algo que vivenciaram", diz Martine. 

BONECAS? ESPERE S PARA V-LAS EM AO 
REBECA ANDRADE, IANOS, E FLVIA SARAIVA, 15 ANOS - GINSTICA ARTSTICA 
      ingrato o ritmo de preparao de um atleta olmpico. Muitas vezes, quando a forma parece ter chegado ao pice, a competio no chega - e o contrrio tambm  verdade. Soluo? Humildade. "Se a Olimpada fosse amanh, eu j estaria preparada", diz Flvia Saraiva, de 15 anos, mero 1,33 metro de altura e lucidez de veterana. Flvia, a da direita na foto ao lado, foi ouro no solo e prata na trave na etapa brasileira da Copa do Mundo de Ginstica Artstica, em maio deste ano. Ela divide os holofotes com Rebeca Andrade, um pouquinho mais velha (16 anos) e 19 centmetros mais alta (1,52 metro), prata no salto no Brasil e bronze nas barras assimtricas um ms antes, na Eslovnia. 
     Quem entende do assunto explica como acompanh-las em ao. "A Flvia encanta pela parte artstica", diz a coordenadora da seleo feminina, Georgette Vidor. "Os rbitros ficam fascinados e s falta sorrirem para ela." Com Rebeca, convm outro olhar. "Ela  muito forte e faz elementos altos." Ambas - uma com graa indescritvel e a outra com energia quase incompatvel com seu porte - ecoam uma tradio da ginstica feminina, cujo maior smbolo  a romena Nadia Comaneci. O que se v so bonequinhas e, dada a autorizao dos juzes, surgem gigantes com total controle de exploso, velocidade e equilbrio. 

"NO PODIA JOGAR FUTEBOL"
CHARLES CHIBANA, 25 ANOS  JUD
     Domingo, 7 de agosto de 2016. No soa improvvel imaginar que a primeira medalha brasileira entre os homens seja do judoca paulistano Charles Chibana. Sexto colocado no ranking mundial da categoria meio-leve, de at 66 quilos, ele  atleta temido e respeitado internacionalmente. 
     Charles, descendente de japoneses, foi parar no jud quase por obrigao gentica, no por genuna vontade. Comeou aos 3 anos a trocar de faixa, mas preferia outro esporte. "Todo sbado tinha campeonato de jud, eu era obrigado a ir e no podia jogar futebol", lembra. A regra era do av. 
     Disciplinado, ele impunha aos netos a concentrao e o respeito tpicos das lutas orientais. "Meu av me inspira ainda hoje", diz Charles. "Ele lutava carat. Nas minhas competies, esteve sempre presente." Quando os campeonatos ficaram mais expressivos e as viagens mais frequentes, Charles resolveu abraar o jud definitivamente. No parou de crescer, incentivado pelos bons resultados da modalidade (o jud brasileiro tem dezenove medalhas olmpicas, ante dezessete da vela; o atletismo tem catorze e a natao, treze). 
     Recomenda-se seguir Charles desde o incio dos combates, sem piscar os olhos. Ele tem um estilo agressivo e gosta de terminar as lutas o mais rapidamente possvel, com ippons espetaculares. "Entra para definir logo,  meu jeito", diz. 

ROBIN HOOD  BRASILEIRA
MARCUS VINCIUS D'ALMEIDA, 17 ANOS  TIRO COM ARCO
     O.k., diro que  conto da carochinha, conversa para boi dormir, fbula, lorota. Mas no . O arqueiro carioca Marcus Vincius D'Almeida (cujo sobrenome com apstrofo lhe confere ar nobre), o mais bem-sucedido atleta brasileiro na modalidade, foi criado num castelo. Ou, a bem da verdade, numa casa que imita o estilo arquitetnico de uma construo medieval. Quem explica  a me de Marcus, Denise: "O castelo foi uma brincadeira que fizemos com as crianas quando ainda eram pequenas. A Isabella, irm do Marcus, era a princesinha, e ele, nosso prncipe". Comear a manipular arcos e flechas foi etapa posterior, associada ao lugar onde moravam, em Maric, a 61 quilmetros do Rio de Janeiro. 
     Ali fica a sede da Confederao Brasileira de Tiro com Arco, e a vizinhana fez Marcus se interessar pelo esporte. Em 2014, ele brilhou. Com 16 anos, classificou-se para a final da Copa do Mundo. Foi o atleta mais jovem da histria a realizar tal feito. Conquistou o segundo lugar. Nos Jogos Olmpicos da Juventude, tambm alcanou uma indita prata para o Brasil. 
     O ano de 2015 comeou bem. Marcus foi eleito, em fevereiro, o segundo melhor arqueiro do mundo pela federao internacional. Depois decaiu, e no tem tido bons resultados. Um profissional do COB foi designado para acompanh-lo, porque no  possvel que um fenmeno como ele se perca. Instado a definir sua atividade, o arqueiro resume: " um esporte que exige sangue-frio". E esse  o trunfo do menino-prodgio que, quando entra em campo, esquece o que ficou de fora: "Sou eu e o alvo, nada mais". E, l no castelinho de Maric, o pano usado no alvo agora faz o papel de cortina colorida na janela do quarto de dormir do Robin Hood brasileiro. 
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7# ARTES E ESPETCULOS 17.6.15

     7#1 TELEVISO  A DOCE VIDA
     7#2 LIVROS  A DERROTA DAS DERROTAS
     7#3 7#3 CINEMA  OPS, ELES MORDEM
     7#4 VEJA RECOMENDA
     7#5 OS LIVROS MAIS VENDIDOS
     7#6 J.R. GUZZO  OS RICOS AGRADECEM

7#1 TELEVISO  A DOCE VIDA
A novela I Love Paraispolis faz sucesso ao recuperar a graa do horrio das 7. E mostra que o espectador se agarra ao escapismo como antdoto  crise do pas real.
MARCELO MARTHE

     No feriado de Corpus Christi, dia 4, o elenco de I Love Paraispolis gravava uma frugal cena de desabafo entre duas amigas recentes (e reticentes). Na mesa de um bar, Margot (Maria Casadevall), arquiteta arrogante que concorre com a herona favelada Marizete (Bruna Marquezine) pelo amor do mocinho da novela das 7 da Globo, expe suas dores de cotovelo a Pandora (Tat Werneck), sem se dar conta de que sua estabanada companhia  irm de criao da rival. A cena, que deve ir ao ar nesta tera-feira, transcorre em ritmo morno at um clmax alcolico: caindo de bbadas, as duas disputam um campeonato de arrotos. De repente, ao ouvir um rudo estrondoso emitido por Maria Casadevall, o diretor Wolf Maya quase cai de costas na sala de edio. Sim, a beldade elegante de ascendncia catal foi buscar nas profundezas de sua barriga negativa um arrotao de verdade. "Uhu! Eu ofereci para botar efeito sonoro e ela dispensou. No  que conseguiu mesmo?", festejou Maya. " uma habilidade nata minha. Minha me  mestra em arroto", diz Maria. At no primitivo pastelo, quem diria, o elenco de I Love Paraispolis procura "passar verdade"  para usar um jargo ao gosto da atriz, egressa de uma trupe de teatro alternativo. Ainda que essa verdade ganhe embalagem rsea: a novela se vale de um doce escapismo ao narrar a vida na favela encravada em meio a edifcios de alto padro no bairro paulistano do Morumbi. Mesmo suas vils  alm de Margot, h a ricaa abilolada Soraya, papel de Letcia Spiller  so to adorveis que  mais fcil rir que ter raiva delas. I Love Paraispolis  um osis de alegria no instante em que a Globo colhe o fracasso retumbante de sua trama das 9, Babilnia. As diferenas entre as duas novelas trazem ensinamentos sobre um novo estado de esprito dos espectadores. 
     Nem as plsticas radicais na trama aliviaram o mau humor que Babilnia causa no pblico. Aps ser encurtada duas vezes, teve seu desfecho transferido de outubro para o fim de agosto. Enquanto isso, I Love Paraispolis angaria simpatia.  a estreia mais promissora na faixa das 7 desde o sucesso Cheias de Charme, de 2012: com mdia de 25 pontos no Ibope em So Paulo, supera o desempenho de suas cinco antecessoras no primeiro ms de exibio. Atrai espectadores de todas as classes sociais e faixas etrias  inclusive os jovens, que haviam se afastado do horrio. No raro, alis, I Love Paraispolis vem submetendo Babilnia, em tese a maior atrao da emissora, ao vexame de ficar atrs em audincia. Seu grande trunfo no  difcil de identificar: a leveza. 
      bvio que se fala de uma atrao das 7, faixa na qual as comdias ligeiras sempre imperaram, em contraponto aos dramas adultos das 9. Ressalve-se, ainda, que a rejeio a Babilnia tem a ver com inpcia narrativa: ao colocar no ar um beijo lsbico sem aplainar o terreno para o espectador e apresentar um excesso de tramas deprs, a novela foi contra princpios bsicos da sobrevivncia na TV aberta. "Se a histria fosse boa, no seria esse fiasco", diz um executivo da Globo.  provvel, porm, que a queda de Babilnia e o triunfo de I Love Paraispolis  assim como o bom retorno das novelinhas infantis do SBT, da religiosa Os Dez Mandamentos, da Record, e at de um folhetim turco na Band (leia o quadro)  decorram igualmente de uma contingncia do humor coletivo: o brasileiro, j irritado com a crise cotidiana, no quer novelas que puxem seu astral ainda mais para baixo. 
     "As pessoas olham para o partido no poder e s veem desmandos. O governo vendeu a iluso de que a classe C iria ao paraso e agora a economia vai mal. Ningum quer sintonizar a novela e s ver mais desgraa", diz Silvio de Abreu, chefe da rea de novelas da Globo. Como nos Estados Unidos dos anos 30, quando a Grande Depresso fermentou o sucesso das comdias de Hollywood, as condies do Brasil atual favorecem novelas amenas (se bem-sucedida, a trama de prostituio de Verdades Secretas, que estreou na semana passada, confirmar a tese por contraste: no momento,  mais prudente arriscar temas assim s aps as 11 da noite). 
      Na concepo de I Love Paraispolis h cuidado em no ferir suscetibilidades. A reproduo da favela paulistana, a maior cidade cenogrfica j construda pela emissora, impressiona. Quando se olha de perto, entretanto, percebe-se que  uma favela de brech. "Embora no tenha um mundo-co acentuado,  claro que a Paraispolis real tem marginalidade. Mas no nos interessa falar de violncia", diz Wolf Maya. Exemplo dessa maquiagem disfaradora  o bandidinho Grego: em vez de ser lder do trfico, o inofensivo personagem de Caio Castro devota-se a uma atividade menos pesada, um desmanche de carros. As pessoas da favela batalham, mas no so infelizes. "A novela no trata os pobres como gente que s reclama da vida", diz Silvio de Abreu. Antes que os patrulheiros fiquem chocados com o retrato positivo, vale esclarecer: uma pesquisa da Globo com moradores de Paraispolis e de outras favelas de So Paulo constatou que eles aprovam o modo como seu mundo  mostrado. 
     Alm do cheirinho de crnica social, a novela pega os jovens pela libido: a Globo descobriu que o clima de pegao comportada entre os protagonistas  um dos pontos fortes. Oferece-se, por fim, o elemento consagrado nas tramas das 7: a comdia. A palhaa-mor  Tat Werneck. As falas atropeladas da doidinha Pandora nem sempre so inteligveis. A atriz minimiza crticas  sua dico: "Faz parte do meu estilo". Ento, t, Tat. No lado dos ricos, a Soraya de Letcia Spiller preenche alegremente o clich da dondoca insensvel. "Ela representa o descaso das elites", diz a atriz. Ainda bem que o espectador nem percebe esse papo de estudante engajado: Soraya  apenas uma deliciosa perua sem noo. "A gente se esforou para ter a Lel porque ns queramos uma mulher nos seus 40 anos com aquela exuberncia", diz Wolf Maya. Nada como um pouco de escapismo sem misria, Lel. 

TURQUIA MEXICANA
Em 2012, a Macednia baixou uma lei restringindo a exibio de um item popular na TV local: as novelas importadas da Turquia, "Quinhentos anos de jugo otomano foram suficientes", disse um ministro local. Aps os Blcs e o Oriente Mdio, o Brasil adere ao melodrama turco. A novela Mil e Uma Noites alcana at 4 pontos no Ibope - o triplo do que a Band obtinha na faixa das 8 e meia da noite. A emissora comprou outras duas produes daquele pas para exibir at 2016. Sucesso entre mulheres acima de 30 anos, o folhetim mostra a fora de uma teledramaturgia emergente. "Como os turcos so morenos, os brasileiros se identificam", diz o argentino Diego Guebel, da Band. O duvidoso elo tnico no ser a nica razo do sucesso: as novelas turcas repetem o tradicional dramalho das mexicanas. A lngua e a cultura mudam, mas o choror  universal. Mil e Uma Noites narra a paixo da viva Sherazade (Bergzar Korel) por seu chefe, Onur (Halit Ergen), aps passar uma noite com ele em troca de dinheiro, para salvar o filho com leucemia. A trama  doce como o ch de ma consumido pelos personagens. Mas, para os padres islmicos, a abordagem dos relacionamentos e da independncia feminina  ousada. As novelas turcas sofreram censura em pases como a Arbia Saudita. 


7#2 LIVROS  A DERROTA DAS DERROTAS
A ambio imperial de Napoleo encontrou seu termo em Waterloo, h 200 anos. Dois lanamentos lembram a batalha e o gnio militar que dela saiu humilhado
NATHALIA WATKINS

     Em um campo enlameado 16 quilmetros ao sul de Bruxelas, cerca de 200.000 soldados enfrentaram-se por oito horas. Homens e cavalos foram decapitados e estripados por baionetas, espadas e balas de canho.  noite, 12.000 cadveres espalhavam-se pelo cho. A Batalha de Waterloo, a terceira entre o Exrcito francs e rivais europeus ao longo de trs dias seguidos, completa 200 anos no prximo 18 de junho. Em 1815, Waterloo ps fim s ambies do incansvel Napoleo Bonaparte. O conflito desde ento costuma ser lembrado como a mais emblemtica das derrotas  a prova de que h limites mesmo para a ambio de um estrategista brilhante. 
     No Brasil, o aniversrio da batalha  celebrado em livros sobre o episdio e seu protagonista. Em Sobre a Guerra (traduo de Clvis Marques; Civilizao Brasileira, 630 pginas, 89 reais), coletnea de escritos do prprio Napoleo, pode-se vislumbrar o gnio blico do "pequeno corso". "Eu, de minha parte, o sou (militar) porque  o dom especial que recebi ao nascer;  minha existncia,  meu hbito. Onde quer que eu estive, eu comandei (...). Eu tinha nascido para isso", disse o general. Em Waterloo (traduo de Bruno Casotti; Record; 364 pginas; 42 reais), obra de no fico de Bernard Cornwell, escritor ingls especializado em romances histricos,  possvel testemunhar o temor que Napoleo inspirava. A mera notcia de que ele fugira da Ilha de Elba foi suficiente para que governantes da Prssia, Inglaterra, Rssia e ustria concordassem em mandar exrcitos para cont-lo. Eles suspeitavam que Bonaparte tramava seu regresso e os atacaria. 
     Napoleo ascendeu na carreira militar na esteira da Revoluo Francesa, colecionando triunfos depois da dissoluo da monarquia, em 1792, quando a recm-criada repblica entrou em guerra com os vizinhos. Em 1804, ele foi proclamado imperador da Frana e sepultou a repblica que antes havia defendido. Ento, iniciou uma extensa campanha militar contra as monarquias ao redor para criar um imprio europeu sob sua tutela. Dos 6 milhes de mortos postos na sua conta, a maior parte  desse perodo. Em 1812, os franceses foram derrotados pelos russos, o corso depois foi exilado na Ilha de Elba e a Frana voltou para as mos da famlia Bourbon. Com o retorno de Napoleo para Paris, os outros pases comearam a se preparar para uma segunda fase. O duque de Wellington tomou a frente da aliana inglesa-holandesa e o general Gebhard von Blcher, a das tropas prussianas. O plano de Napoleo era, com seus 125.000 homens, impedir que os rivais se juntassem para combat-lo. Ele invadiu a Blgica em 15 de junho e, no dia seguinte, enfrentou as tropas de  Blcher. No dia 17, deparou com as de Wellington em outro lugar. No dia 18, os prussianos afinal chegaram para ajudar Wellington, encerrando a carreira de Napoleo. Vale notar que, nesse dia, o imperador no estava em seu estado normal. Cansado e provavelmente doente (alguns dizem que do estmago), ele delegou decises cruciais que, em outros tempos, teria tomado sozinho. Estava prostrado antes mesmo do fim das hostilidades. "Napoleo deixou que os outros lutassem por ele. S faltou sentar-se para assistir ao desenrolar da batalha", disse Cornwell a VEJA. Em seu retorno a Paris, enquanto via milhares de corpos nus nos campos  as roupas haviam sido saqueadas por camponeses , o corso escreveu uma carta ao irmo Joseph, calculando quantos soldados ainda poderia juntar para enfrentar o inimigo imediatamente. 
      pouco provvel que uma vitria francesa em Waterloo fosse determinante para o futuro da Europa. Napoleo ainda teria de enfrentar os austracos e os russos, que se aproximavam pelo leste com outros 300.000 homens armados. Com sua derrota e novo exlio, agora na Ilha de Santa Helena, a Europa viveu dcadas de paz. Sem a competio francesa, a Inglaterra iniciou seu perodo de potncia hegemnica no sculo XIX. Outro efeito colateral da Batalha de Waterloo foi a escalada do nacionalismo germnico. Pequenos reinos da atual Alemanha fortaleceram-se graas aos xitos militares contra os franceses e passaram a almejar um imprio to poderoso quanto o britnico. Ao longo da histria, uma guerra desemboca na outra. 


7#3 CINEMA  OPS, ELES MORDEM
O enredo  batido, mas funciona: em Jurassic World, um grupo de iludidos mais uma vez acha que os turistas podem conviver com dinossauros sem virar refeio
ISABELA BOSCOV

     A definio da loucura, diz-se,  repetir uma mesma ao vez aps outra esperando obter resultados diferentes. Nesse sentido ao menos, John Hammond  o bilionrio que primeiro idealizou o Parque Jurssico  e seus sucessores so doidos de carteirinha: vivem tentando promover a convivncia turstica entre seres humanos e dinossauros achando que desta vez, quem sabe, ela no vai chegar ao seu desfecho inevitvel  com os turistas aos pedaos entre os dentes dos animais. J Steven Spielberg e os outros produtores que desde 1993 se associaram  franquia Jurassic Park, esses de loucos no tm nada: sabem que uma ao, repetida, tende a produzir os mesmos resultados, e que sempre que seres humanos viram comida de tiranossauros e velocirraptores os cinemas se enchem para o espetculo. Jurassic World  O Mundo dos Dinossauros (Jurassic World, Estados Unidos, 2015), j em cartaz no pas, assume sem pudor essa regra, e explica por que o faz. 
     Vinte e dois anos aps os eventos que determinaram o fechamento do Parque Jurssico antes mesmo de sua inaugurao, o Mundo Jurssico, construdo na mesma Isl Nublar do original,  um sucesso tremendo. Multides vo  Costa Rica para andar no lombo de herbvoros mansos, abraar filhotes de apatossauros, percorrer os habitats em monotrilhos ou dentro de engenhosos carrinhos esfricos, ou, sobre passarelas instaladas a distncia segura, assustar-se com a ferocidade dos carnvoros. O problema  que, depois de uma dcada de funcionamento regular, nada disso  mais novidade.  preciso oferecer algo diferente, maior  por exemplo, o Indominus rex, um superpredador feito a partir do DNA do tiranossauro e mais uns tantos genomas no revelados. Esse exemplar nico  considerado uma aposta segura pelos iludidos de praxe  a executiva que administra o parque (Bryce Dlias Howard), o cientista que criou o hbrido (B.D. Wong) e o bilionrio idealista que sucedeu a John Hammond no projeto (Irrfan Khan) , mas enche de temor a nica pessoa que realmente conhece os dinossauros de perto. Owen Grady (Chris Pratt), um ex-militar que vem obtendo algum xito no treino de velocirraptores, sabe que o instinto de um predador sempre vai prevalecer. 
     Da armao desse cenrio ao massacre que se segue, Jurassic World retoma todos os temas do Jurassic Park de 1993 (as continuaes de 1997 e 2001 foram descartadas do enredo): o casamento mal ajustado de tino empresarial com mpeto visionrio, os riscos da manipulao gentica, a natureza que se volta contra os que presumem poder domestic-la, a famlia em perigo  de novo, duas crianas, os irmos Zach e Gray (Nick Robinson e Ty Simpkins), sero apanhadas em cheio pela confuso. Mas admite explicitamente que aquilo que encantou a plateia em 1993 hoje j  carne de vaca, e por isso est apresentando a ela o ferocssimo Indominus  e, de quebra, satiriza a ndole corporativa desse tipo de empreendimento ao mesmo tempo em que ganha dinheiro com ela: o Mundo Jurssico, como qualquer outro parque temtico real, no perde uma oportunidade que seja de propagandear marcas. To fiel  a refeitura do filme original que se pode apostar, sem medo de erro, que essa insanidade no tem cura: de novo algum vai investir uma fortuna no parque dos dinossauros  e de novo esse algum vai esquecer de combinar com os dinossauros que no, os turistas no fazem parte da refeio. 

UM IMPROVVEL HERI DE AO
Revelado como o burrinho mas feliz Andy Dwyer da srie Parks and Recreation, Chris Pratt parecia um candidato inslito a heri de ao. Mas o sucesso em Guardies da Galxia abriu para ele uma nova avenida. Protagonista de Jurassic World, o ator entrou para o time dos que so sempre os primeiros a receber os roteiros mais disputados. Pratt, de 35 anos, falou a VEJA sobre essa transio. 

James Gunn, o diretor de Guardies da Galxia, achou que s um louco contrataria como heri o sujeito rechonchudo de Parks and Recreation  mas depois admitiu que estava errado. 
H anos j eu vinha seguindo um percurso estranho: passava metade do ano gorducho para a srie, e na outra metade perdia peso para trabalhar em filmes como O Homem que Mudou o Jogo e A Hora Mais Escura. Pelo jeito, algum notou que eu no era preguioso o tempo todo.  

Mas no  s uma questo de forma fsica: Andy  burro como uma porta, certo? 
Digo com orgulho que sim, Andy  um dos personagens mais burros do mundo. A lgica indica, portanto, que talvez eu no seja um cara brilhante, mas certamente tenho de ser mais esperto do que Andy. No chega a ser um ato de coragem para um diretor apostar nisso. 

Existe uma teoria segundo a qual  preciso ser muito inteligente para se fazer de burro de forma convincente. 
Opa, adorei essa teoria! Veja s, minha mulher, Anna Faris, fez toda uma carreira interpretando loiras tontas, e  uma das pessoas mais inteligentes que conheo. 

Voc tem a reputao de ser um adepto da improvisao. H espao para ela em um filme como Jurassic World? 
Numa srie como Parks and Recreation, a improvisao  encorajada, pois no sai caro: se uma gag no deu certo, voc deleta o arquivo da cmera e comea de novo. Numa produo repleta de efeitos visuais como Jurassic World,  bom pr o senso de responsabilidade para funcionar: seu improviso  to bom que valha o risco de desperdiar os milhares de dlares que aquela tomada custa? s vezes eu no consigo evitar, o improviso sai. Mas aprendi certos limites. 

Em todos os seus papis, voc transmite  plateia a sensao de que  fundamentalmente um cara bacana. Voc gostaria de um dia se arriscar em um personagem desprezvel? 
H personagens desprezveis que ainda assim tm a simpatia da plateia, e outros que so justos mas detestveis. No sei se j possuo tal domnio de tonalidade para tentar qualquer uma dessas coisas. Acho que precisaria fazer alguns ajustes na minha alma para realizar algo assim. 


7#4 VEJA RECOMENDA
DISCOS
LEONARD COHEN CAN'T FORGET: A SOUVENIR OF THE GRAND TOUR (SONY)
 Em 2004, ao retornar de um retiro espiritual, o compositor canadense Leonard Cohen descobriu que sua empresria (e namorada) dera um desfalque de 5 milhes de dlares em sua conta bancria. Para equilibrar seu saldo bancrio, Cohen passou a excursionar e gravar com uma frequncia maior. A princpio, Leonard Cohen Cant Forget: A Souvenir of the Grand Tour pode dar a impresso de que ele est novamente de caixa baixa:  o terceiro disco ao vivo do poeta num espao de seis anos. Mas o ouvinte sai querendo mais. O disco traz dez faixas, cinco delas gravadas durante a passagem de som. E que passagem: Choices, por exemplo,  um grande cover do cantor e compositor George Jones (1931-2013). A letra, que fala de um sujeito que escolheu se entregar  bebida,  pontuada pelo som tristonho da rabeca de Alexandru Bublitchi. Outras maravilhas sadas dessas sesses descontradas so Joan of Arc e Got a Little Secret, nas quais ele faz duetos com Hattie Webb e Sharon Robinson. Cant Forget traz ainda uma cano indita, Never Gave Nobody Trouble, um blues para nenhum rebento do Mississippi enxergar defeito.

BAIUNO, SAULO (INDEPENDENTE)
 Os pop stars da Bahia so clebres por abraar rtulos pejorativos  l atrs, a expresso "ax music" pretendia ser irnica. Saulo Fernandes, ex-vocalista da Banda Eva (que revelou, entre outros, Ivete Sangalo), encasquetou com "baiuno", termo utilizado pelo jornal Pasquim para se referir a artistas como Caetano Veloso e Gilberto Gil. Saulo fez de Baiuno um atestado de qualidade do pop baiano. H praticamente um pedao da Bahia em cada faixa. As razes africanas comparecem na participao dos cantores Julia Sarr (em Tambor Menino) e Ray Lema (Perud) e tambm na percusso forte de Er de Dois. Veloso Cidade e Povoesia remetem aos primeiros  e mais originais  anos da ax music. Roberto Mendes, uma referncia da msica baiana, contribuiu com os vocais de Florena. Saulo, ao contrrio dos intrpretes de trio eltrico, prefere o canto ao grito, e por isso se d bem em faixas delicadas como Prece ao Corao, de Mrcio Mello. H ainda duas participaes do sanfoneiro Mestrinho (Mokhtar e Nosso Amor). O lanamento em CD de Baiuno est previsto para agosto, mas o disco j pode ser encontrado nas plataformas virtuais.

LIVROS
PENSADORES MODERNOS, DE THOMAS MANN (TRADUO DE MRCIO SUZUKI; ZAHAR; 280 PGINAS; 59,90 REAIS, ou 39,90 NA VERSO ELETRNICA)
 "Oh, que nobre esprito que aqui se arruinou", lamenta Oflia ao ver o que imagina serem sinais de loucura no prncipe Hamlet. Esse verso de Shakespeare  tomado por Thomas Mann (1875-1955) como epgrafe para uma aguda comparao entre , Hamlet, o melanclico prncipe dinamarqus, e Friedrich Nietzsche, talvez o mais brilhante filsofo alemo do sculo XIX, que tambm ficou louco. Autor de romances fundamentais do sculo XX, como A Montanha Mgica e Morte em Veneza, Mann era ainda um crtico e um pensador fino, como demonstra este ensaio sobre Nietzsche. Quarto livro de uma coleo dedicada aos ensaios do autor, Pensadores Modernos inclui tambm textos sobre Sigmund Freud e a psicanlise, a filosofia de Arthur Schopenhauer e o grande gnio da pera Richard Wagner. No apndice, h uma carta de Freud ao amigo escritor, datada de 1936. O pai da psicanlise comenta Jos e Seus Irmos, romance de Mann, e traa um interessante paralelo entre Jos, o personagem do Gnesis, e Napoleo Bonaparte.

O CORPO HUMANO, DE PAOLO GIORDANO
(TRADUO DE EDUARDO BRANDO; COMPANHIA
DAS LETRAS; 352 PGINAS; 44,90 REAIS, ou
30,90 NA VERSO ELETRNICA)
 Best-seller na Itlia com A Solido dos Nmeros Primos  lanado no Brasil pela Rocco , um drama sobre um casal de jovens s voltas com passados traumticos, Paolo Giordano aborda novamente relaes conflituosas entre personagens envoltos em certa solido irremedivel  mas agora na situao extrema da guerra. O Corpo Humano acompanha um peloto italiano em uma zona de conflito no Afeganisto. Na maior parte do tempo, os personagens vivem o tdio de dias estacionrios e o desconforto das piores condies ambientais  Giordano esmera-se na descrio de uma tempestade de areia. As relaes entre os militares so speras, difceis: Roberto letri, o mais jovem do grupo,  humilhado por sua inexperincia sexual, e as oficiais mulheres tm relaes problemticas com seus companheiros. A narrativa encontra seu clmax em uma operao militar desastrosa  os sobreviventes no so mais os mesmos ao retornar para casa. Esta  uma sensvel crnica dos efeitos ! da guerra no s sobre o corpo de que fala o ttulo, mas tambm sobre o esprito.

TELEVISO
NASHVILLE  SEGUNDA TEMPORADA (SEGUNDA-FEIRA, S 21H30, NO CANAL SONY)
 Produo da rede americana ABC, esta srie sobre os bastidores da msica country americana  cuja capital  Nashville, no Estado do Tennessee  vem sendo negligenciada, no Brasil, pelo canal Sony, que exibiu a primeira temporada em 2013 e s agora apresenta a segunda (a TV americana acabou de exibir a terceira). Espera-se que, a partir dessa reestreia, ela ganhe regularidade. A trama centra-se na rivalidade entre Rayna Jaymes (Connie Britton), veterana da country music, e Juliette Barnes (Hayden Panettiere), uma jovem e mimada artista de country pop  cuja ascenso ameaa o reinado de Rayna. O personagem principal, no entanto,  a prpria Nashville e seus candidatos  fama. Callie Khouri, criadora da srie, conhece bem esse mundo:  casada com o produtor musical T-Bone Burnett. A segunda temporada comea com Rayna em coma, depois de um acidente de carro. Entram em cena novos personagens, como um detestvel executivo de gravadora, interpretado por Oliver Hudson, e Layla Grant, ex-participante de um reality show musical que deseja se tornar estrela country. 



7#5 OS LIVROS MAIS VENDIDOS
FICO
1- A Herdeira. Kiera Cass. SEGUINTE
2- O Pequeno Prncipe. Antoine de Saint-Exupry. AGIR 
3- Toda a Luz que No Podemos Ver. Anthony Doerr. INTRNSECA
4- Cidades de Papel. John Green. INTRNSECA
5- Se Eu Ficar. Gayle Forman. Novo Conceito 
6- Invaso do Mundo da Superfcie. Mark Cheverton. GALERA RECORD 
7- Para Onde Ela Foi. Gayle Forman. NOVO CONCEITO
8- A Seleo. Kiera Cass. SEGUINTE
9- As Espis do Dia D. Ken Follet. ARQUEIRO
10- Simplesmente Acontece. Cecelia Ahern. NOVO CONCEITO

NO FICO
1- Eu Fico Loko. Christian Figueiredo de Caldas. NOVAS PGINAS
2- Bela Cozinha: As Receitas. Bela Gil. GLOBO
3- Correr. Drauzio Varella. COMPANHIA DAS LETRAS 
4- 1808. Laurentino Gomes. GLOBO
5- Brasil: uma Biografia. Lilia M. Schwarcz e Heloisa M. Starling. COMPANHIA DAS LETRAS 
6- O Dirio de Anne Frank. Anne Frank. RECORD 
7- A Teoria do Tudo. Jane Hawking. NICA 
8- Sniper Americano. Chris Kyle. INTRNSECA
9- Sonho Grande. Cristiane Correa. PRIMEIRA PESSOA 
10- O Capital no Sculo XXI. Thomas Piketty. INTRNSECA 

AUTOAJUDA E ESOTERISMO
1- Philia. Padre Marcelo Rossi. PRINCIPIUM
2- A Mgica da Arrumao. Marie Kondo. SEXTANTE
3- Ansiedade. Augusto Cury. SARAIVA 
4- No Se Apega, No. Isabela Freitas. INTRNSECA
5- Gerao de Valor. Flvio Augusto da Silva.  SEXTANTE
6- A Hora  Agora! Zibia Gaspareto. VIDA & CONSCINCIA 
7- O Monge e o Executivo. James Hunter. SEXTANTE
8- Negocie Qualquer Coisa com Qualquer Pessoa. Eduardo Ferraz. GENTE
9- O Livro do Bem. Ariene Freitas e Jessica Grecco. GUTENBERG
10- O Poder da Escolha. Zbia Gasparetto. VIDA & CONSCINCIA 


7#6 J.R. GUZZO  OS RICOS AGRADECEM
     Sempre  bom tomar cuidado quando a situao est preta e lhe dizem que "algum precisa fazer alguma coisa" a respeito   sinal de que no existe a menor ideia prtica sobre o que deve ser feito, nem a vontade real de resolver problema algum. Quando a conversa sai do mundo das palavras para entrar no mundo dos fatos, verifica-se que "algum" quer dizer "ningum", e que "alguma coisa" quer dizer "nada". Ou seja: vai continuar tudo igual, e quem cobrou ao imediata, corajosa e eficiente dos "responsveis" no se considera responsvel por coisa nenhuma, dispensa-se da obrigao de oferecer qualquer sugesto til e fica achando que fez a sua parte no esforo universal pela vitria do bem. Neste instante, justamente, estamos vivendo um dos grandes momentos na longa histria nacional do "algum precisa fazer alguma coisa". O Tesouro da Repblica est no bico do corvo, porque o governo gasta muito mais do que tem  e, diante da bancarrota anunciada, a nica coisa que pode realmente fazer, e tem de fazer j,  gastar menos. Mas o partido que est no governo  contra o que o governo prope para equilibrar o caixa; no aceita a reduo de despesas, que considera uma atitude "de direita". E a insolvncia do Errio  como  que fica? "Algum  precisa fazer alguma coisa", diz o PT. Fazer o qu? Criar um imposto sobre grandes fortunas, propem as lideranas do partido, e tirar da o dinheiro que est faltando para fugir da falncia. 
     Eis a uma ideia praticamente perfeita em matria de sugerir o nada. Em primeiro lugar, o PT, em doze anos e meio de governo, no apresentou um nico projeto para taxar fortunas; se acreditasse mesmo nisso, j teria feito "alguma coisa". S agora, na hora do sufoco, quer que se faa o que nunca quis fazer  alis, tanto quanto se saiba, quem props imposto sobre fortuna neste pas, l no tempo em que os bichos falavam, foi o ento senador Fernando Henrique. O PT sabe muito bem, alm disso, que no h o menor risco de que o novo imposto se transforme em realidade no futuro visvel, quando se leva em conta que precisa ser aprovado pelo Congresso e que no existe, no momento, sequer um pedao de papel a ser discutido.  certo, enfim, que um imposto sobre fortunas, por mais agressivo que seus autores o imaginem, seria absolutamente incapaz de gerar dinheiro suficiente para ajudar na soluo da despesa pblica, um King Kong que tributo algum vai incomodar. A nica realidade, em toda essa histria,  a demagogia em estado puro da proposta  que tem o atrativo extra, para seus defensores, de apresentar-se como uma espcie de cruza entre "ajuste fiscal" e "reduo da desigualdade", ao dizer que vai tirar s dos ricos, e no de todos, o dinheiro necessrio para lidar com o rombo. O imposto sobre grandes fortunas seria o aplicativo milagroso para resolver as duas questes ao mesmo tempo  e uma bela oportunidade de propaganda para os marqueteiros do governo. Quando se trata de tirar de Paulo para dar a Pedro, sempre se pode contar com o aplauso de Pedro. 
     A proposta do imposto sobre fortunas  um monumento na arte de vender iluses. Parece lindo: o que pode haver de mais justo do que confiscar dinheiro dos ricos? Mas a vida real, essa notria desmancha-prazeres, mostra que a taxao de riquezas no serve nem para resolver dficits do Errio nem para distribuir renda. No caso do Brasil de hoje, est na cara que o maior causador de despesas  o pagamento dos juros da dvida pblica, que s existe porque o governo gasta demais  em 2015 o Tesouro Nacional vai torrar 75 bilhes de reais com isso, mais do que em qualquer outra coisa. Que diferena um imposto sobre fortunas poderia fazer numa cordilheira desse tamanho? Na Frana, ptria-me de todos os esforos para taxar riquezas, e onde os ricos vm fazendo suas fortunas desde os tempos do bom rei So Lus, a diferena  nenhuma. O "imposto da solidariedade", marca-fantasia que lhe foi dada pelo governo socialista, atinge 300.000 franceses com patrimnio superior a 1,3 milho de euros, o equivalente a cerca de 4,5 milhes de reais, entrando a imveis, inclusive o de moradia, automveis e at os mveis da casa. Com tudo isso, rendeu 5 bilhes de euros em 2014  um trocado, diante do tamanho do gasto pblico na Frana. No Brasil no daria para pagar nem trs meses de juros da dvida. 
     O diabo no so os ricos,  a dvida  por sinal, ela s beneficia os prprios ricos, que tm dinheiro de sobra para emprestar ao governo. Mas aqui se considera que gasto pblico  avano social; cortar despesas  proibido. Os ricos agradecem. 

